Livros que nos fazem água na boca...


Pelo título que escolhi poderia parecer que falo de livros de culinária, daqueles cheios de receitas e principalmente fotos de deliciosas e suculentas iguarias, doces ou salgadas, daqueles que nos dão uma vontade enorme de ir a correr saciar uma fome repentina…e que nos fazem meter à boca o primeiro alimento que se atravessar no nosso caminho.
Mas não. Os livros podem (e devem) despertar os nossos sentidos, as nossas emoções. Adquiri um gosto especial por livros que me despertam os sentidos do paladar e do olfato. Livros cuja história e personagens se envolvem de cheiros, sabores, em confeções de refeições, de aromas. Por vezes as descrições são tão pormenorizadas e as evocações aos aromas são tão intensas que as nossas papilas gustativas entram em ação reconhecem e sentem de imediato as substâncias descritas. Situações há em que se faz a descrição de aromas ou sabores que não conhecemos totalmente e então entra também em ação a nossa imaginação e já nos estamos a ver como chefes de renome no ato criativo de uma nova iguaria.
O livro que me despertou completamente estes sentidos e que me fez querer persistir na procura de livros que o continuassem a fazer foi “ Como água para chocolate” da Laura Esquivel.
Descobri Joanne Harris com “O vinho mágico”. Não, não foi com “chocolate” por incrível que pareça, eu que tanto gosto de chocolate. A autora é mestre no que diz respeito em nos despertar os sentidos do paladar e do olfato e como tal lá vou alternando os seus livros com outros menos sensoriais. Recordo “ Cinco quartos de laranja” e “O aroma das especiarias”.
Há alguns livros, sem que tivesse de antemão qualquer referência, que, ou pelo título sugestivo ou pela sua descrição me levaram a que os adquirisse e se revelaram agradáveis surpresas. Deles destaco “Onde crescem limas não nascem laranjas” de Amanda Smyth, “A viagem dos cem passos” de Richard Morais e “Ingredientes para o amor” de Erica Bauermeister.

Mas falar de livros sensoriais e não referir “O perfume” de Patrick Suskind é impensável. “O perfume” é O livro! Como adorei este livro! É simplesmente genial. Quando derretida olho cheia de amor para os meus filhos e penso “Gosto tanto deles que só me apetece trincar” lembro-me logo deste livro….

Prazeres gastronómicos


“Mãe, e aquele chocolate?! Humm, tão bom, era como se estivéssemos a comer um pedaço de céu!” Recordava a minha filha com prazer estampado no rosto.

Podemos banquetear-nos com uma faustosa refeição digna de agradar aos mais exigentes deuses, no entanto, pequenos e simples prazeres fortuitos, são por vezes aqueles que mais se entranham na nossa memória gastronómica. É a especificidade e a pureza de um determinado sabor ou conjunto de sabores que nos elevam a um estado de prazer e felicidade incomparável e que recordaremos para sempre.

Nunca mais esqueci o prazer que senti há cerca de 30 anos, quando numas férias de verão fui passar uns dias a casa dos avós de uma grande amiga, numa aldeia entre Mafra e o Oceano Atlântico. Como praticamente tudo nas aldeias, ali a comida é mais genuína… e saborosa. Fruto da terra e das mãos que a trabalham os alimentos ganham intensidade e pureza de paladar. Ainda hoje fico com água na boca só de recordar aquele pão, amassado pelas mãos da avó, acabado de cozer no forno a lenha da cozinha rústica, ainda a fumegar, a ser barrado com manteiga caseira, branquinha, também ela feita pela avó. A manteiga derretendo ao contacto com o pão quente e antes que arrefecesse, antes que o liquido leitoso gotejasse, o naco era tragado para puro deleite nosso. Bocado a bocado, envolvidas pelo aroma único de pão acabado de cozer, deixámo-nos levar num êxtase crescente de puro prazer.

Recordo umas amêijoas à Bulhão Pato que comi numa esplanada da Avenida Luísa Todi, em Setúbal. Por muitas amêijoas que volte a comer, estas recordo-as com brilho nos olhos e saliva na boca, pela sua frescura e pela maneira deliciosa como foram confecionadas, sem que os vários ingredientes e condimentos se sobrepusessem ao sabor intenso, fresco e carnudo do próprio bivalve. Também o robalo grelhado no carvão que saboreei ao pôr-do-sol na praia do Portinho da Arrábida ter-me-ia sabido a céu se não me tivesse sabido tão bem a mar. Tínhamos nadado, nós e o peixe, uma hora antes, no mesmo mar, naquele mar límpido e gelado, tão rico de vida.

Uma experiência gastronómica que me ficou irreversivelmente marcada, não só na memória, mas também nas papilas gustativas, foi o sacrifício que tive a comer uma sopa tunisina de tomate e harissa. A dita sopa foi confecionada em casa, por um tunisino, sem adaptações ao nosso paladar. Na altura não estava muito familiarizada com os sabores apimentados, nunca foi um ingrediente que se fizesse sentir nos cozinhados da minha mãe. Aquela sopa soube-me a fogo puro… o pouco que consegui sentir de sabor. A cada colherada que me esforçava por engolir a temperatura subia 10ºC. Deixei de sentir os lábios, a língua, o esófago, o estomago. Tudo era fogo, fiquei literalmente e completamente em combustão. No fim triunfei e fiquei apta e com direito a certificado de apreciadora de sabores picantes. Nunca mais deixei de utilizar piri-piri, pimentas, malaguetas e afins na confeção de refeições. Também da Tunísia recordo um delicioso, aromático e temperado vinho tinto bebido ao anoitecer, junto ao deserto, num quente dia de agosto.

Na minha memória gastronómica sucedem-se sabores numa riqueza de momentos gustativos: o sabor e o cheiro das batatas fritas que se comiam na praia na minha infância; as tostas barradas com manteiga em casa da minha avó; em setembro, no Alentejo, acordar com os raios de sol entre as folhas de uma figueira, após uma noite ao relento, e os beijos da manhã prolongarem-se nos lábios unidos pelo açúcar dos figos; o suco das amoras colhidas ao longo dos caminhos; as maçãs mornas apanhadas numa tarde de verão e trincadas à sombra da macieira; o pudim de ovos da minha mãe ao almoço de domingo; o bacalhau espiritual em casa de uma amiga; o café único, cremoso, feito pelo papá Speciale em Fabriano; o caril de gambas do meu marido…

PO.RO.S


A animação da conversa abafava os sons do frenesim da cidade naquele fim de tarde de junho.
A frescura do jardim interior, com os lagos ajardinados e repuxos, amenizava o calor sufocante que ainda se fazia sentir apesar de se aproximar a hora da ceia. As cortinas vermelhas abertas, permitindo que aquela divisão se enchesse dos aromas do início de verão e da frescura do jardim interior, permaneciam imóveis tal a total ausência de brisa. No escritório os homens discutiam assuntos relacionados com as suas propriedades rurais e, enquanto esperavam que os servos servissem a ceia, saboreavam o tão afamado vinho do senhor da casa. Um néctar digno dos deuses, de facto. O pão embebido em azeite aromatizado com ervas apaziguava os estômagos lânguidos.
Lá fora, no peristilo, as crianças brincavam com as suas pedrinhas coloridas e iniciavam-se em jogos de estratégia, observadas pelas orgulhosas mães, que alternavam os elogios às suas crias os com comentários dissimulados de cobiça relativamente às jóias que tão orgulhosamente exibia a matrona recém-chegada à cidade…
Esta poderia ter sido uma qualquer cena da vida quotidiana de Conímbriga no ano 77.d.c, mas é apenas uma das cenas que recriei na minha imaginação quando, este domingo, visitei com os meus filhos o museu PO.RO.S.
 A missão de nos reportar para estes espaços, para estas vivências, para este tempo, está agora mais eficaz com a abertura do novo museu em Condeixa-a-Nova, o PO.RO.S – Portugal Romano em Sicó. Este espaço museológico funciona em articulação com as ruínas e o museu de Conímbriga, um dos maiores sítios arqueológicos do país, em Condeixa-a-Velha.
O museu PO.RO.S ocupa a antiga casa da Quinta de S. Tomé em Condeixa-a-Nova e, para além do espaço museológico, contempla ainda uma sala para exposições temporárias, um auditório, uma sala de oficinas criativas, uma cafetaria com a agradável vista para o parque verde e ribeira de Bruscos e ainda um amplo pátio que permite eventos e espetáculos ao ar livre.
O museu é interativo, é dinâmico, é moderno e ajuda-nos a apreender tudo o que na escola aprendemos sobre a civilização romana e a romanização. A viagem à época dos romanos começa no túnel do tempo em que, através de acontecimentos e sons, vamos regredindo nos séculos. Depois temos filmes, maquetas, vídeos interativos, objetos, réplicas que nos permitem sentir as texturas das suas esculturas, dos mosaicos, da escrita na pedra….do peso das armas. Recordamos a arte, a cultura, o engenho e a construção das cidades, a política e a religião, a agricultura e o comércio, as legiões e a astúcia militar. Somos confrontados com a grandiosidade do império, com a sua influência na região e passamos ao pormenor de espreitar (literalmente) a sua vida privada e íntima.

A visita ao museu é enriquecida com a visita aos vários sítios arqueológicos da região. Como sugestão, uma passagem pela cafetaria do museu para experimentar a iguaria caraterística de Condeixa – a escarpiada – um bolo feito à base de massa de pão, açúcar amarelo com canela e azeite. Deixa-nos com água na boca e vontade de degustar outras especialidades gastronómicas…

A dimensão invisível


Chegámos cedo à praia…bem, cedo para nós, já eram 10 horas da manhã! Seja como for, naquela praia, com a sua caraterística neblina matinal, antes das 10 horas não se encontra muita gente. A praia estava vazia, vazia de gente e de maré. Apenas algumas famílias, a norte, junto às rochas. Escolhemos um local para estender as toalhas, não foi difícil, a sul das rochas não se encontrava ninguém. Orgulhosos da nossa escolha, da escolha da praia e do local onde estendemos as toalhas, podíamos usufruir plenamente da areia, do mar e do sol que começava a espreitar por trás das nuvens que se dissipavam, sem balbúrdias de gente, com espaço suficiente para jogar raquetes e silêncio para ouvir as ondas do mar.
À medida que o sol foi ficando mais quente foram chegando mais pessoas, nãos as suficientes para encher a praia, mas as bastantes para transformarem o nosso domínio sobre a praia deserta num apinhado condomínio. É curioso como as pessoas se foram instalando todas à nossa volta, deixando a restante área da praia, a sul, completamente livre. Tínhamos optado por estender as toalhas numa zona sem ninguém, mas acabámos rodeados de gente, a pouco mais de 1 metro de distância, quando tinham tanto espaço livre, tanta área de areia virgem, após a maré alta da noite, à espera de ser marcada com uma pegada, um par de chinelos, um rabo afundado na toalha…
E foi assim que nasceram os primeiros povoados, as primeiras vilas e cidades. O ser humano tem tendência para se agrupar, por questões de segurança, de convívio, de interesse, de economia de recursos e mesmo de sobrevivência. Agrupamo-nos mas delimitamos o nosso espaço. O espaço privado de cada um. O espaço privado é muito valorizado e nunca pode ser violado. Mas a noção e as relações de espaço privado mudam de pessoa para pessoa e de povo para povo e até de situação para situação, o importante é que o mesmo esteja devidamente sinalizado e delimitado.
Suponho que na praia o espaço privado de cada um seja a área ocupada pela sua toalha a que acresce os anexos que correspondem ao saco, aos chinelos e ao monte de brinquedos despejados na areia mal se escolhe o local da implantação do “nosso espaço na praia”. Uma família numerosa ou um grupo de amigos terá necessariamente uma área maior a que chamar sua. Temos por vezes autênticas mansões T10. Se o T10 corresponder a uma família com crianças então para além das 10 toalhas estendidas na areia teremos uma infinidade de anexos, alguns até, arrisco dizer, ilegais: todos sabemos que o monte de brinquedos deverá ficar concentrado junto das toalhas e restantes anexos (o monte de chinelos, os sacos e mochilas, malas térmicas, etc.), isso de espalhar pás, ancinhos, camiões, moinhos, baldes, bolas, raquetes, boias e pranchas pela praia toda soa um pouco a clandestinidade, a usurpação do espaço público…
Se numa praia encontramos espaços privados bem modestos, alguns que nem toalhas têm, T0 portanto, também por vezes encontramos autênticos condomínios privados em que várias famílias coabitam. Tive a oportunidade de ter encontrado um desses condomínios: 5 ou 6 chapéus-de-sol, circundados e bem delimitados por vários corta-ventos, que albergavam as várias toalhas e restantes anexos onde se destacavam as muitas malas térmicas. Encontramos ainda nas nossas praias alguns povoados ou comunidades: as colónias de férias…

Posto isto, compreendo melhor o facto de as pessoas se aglomerarem à nossa volta, apesar de grande parte da praia permanecer vazia, no entanto, o título do primeiro livro de Joanne Harris que li insiste em me vir à memória…

Pizzas e pizas


Quem me conhece sabe que adoro Itália e tenho vários amigos italianos. Há tempos uma amiga, italianíssima de gema, publicou um artigo no seu mural do facebook relativo à confusão que existe sobre costumes gastronómicos italianos e da veracidade de algumas receitas ditas italianas.
Pelo que percebi do texto e dos comentários à publicação, se há coisa que faz um italiano sair do sério é saber que há quem faça (e coma) pizza com fruta, nomeadamente com ananás… Nunca, mas nunca se põe fruta numa pizza, nem frango… E muito menos bacalhau!
Como eu adoro pizza e, sacrilégio dos sacrilégios, adoro pizza (e outros pratos) com fruta, esta semana fui com a família deliciar-me ao local onde servem as melhores pizzas (ou pizas) de Condeixa - a - Nova. Pedi uma “pizza Madeirense” que leva frango, maçã, banana e ananás. Simplesmente divinal… Para o meu paladar, que sou a única na família que gosta de fruta na comida.
Em jeito de provocação publiquei 2 fotos da pizza, juntamente com a descrição dos ingredientes, no mural da minha amiga italiana… Ui. Como esperado as reações foram de poucos “likes” mas muitos “iconzinhos” de raiva e choro e comentários a dizer que nunca iria encontrar uma pizza assim em Itália, que não colocam fruta nem frango nas pizzas.
EU SEI! Não era uma pizza italiana, era uma pizza, ou piza, “madeirense”!
A questão que se coloca é: será legítimo fazer pizas onde se colocam todos e mais alguns ingredientes, que da receita tradicional e original italiana pouco mais têm que a massa, o tomate e o queijo? Para mim sim, desde que não lhes chamem pizza napolitana, nem pizza Margherita…. E nesse caso deveriam adotar a grafia portuguesa: piza alentejana, piza transmontana, piza algarvia, piza tropical, piza madeirense… Uma infinidade de receitas maravilhosas prontas a saciar os mais variados paladares.
Porque ficam os italianos tão aborrecidos se com a base de um dos seus mais famosos pratos típicos - a saber que a pizza não foi uma invenção italiana mas uma adaptação de uma receita que surgiu, pensa-se, que no Egito, passou para os Fenícios e chegou a Nápoles vinda da Turquia – nós transformamos e criamos novos pratos, com novos ingredientes e sabores?
Ok, não querem que se pense que essas modernices são algo tradicionalmente italiano…. A pureza da criação original (a pizza como a conhecemos hoje) deve permanecer, afinal ninguém pensaria cobrir o David de Michelangelo Buonarroti com cores e vestes… Ou pensaria?!
Conclui-se que nós somos mesmo um país de criativos, nomeadamente no que à comida diz respeito, gostamos de experimentar, criar, alterar… Afinal existem pastéis de nata de chocolate, de castanhas, de maracujá….Pastéis de nata vegan! Não me parece que isso afete o ego da nossa nação: um pastel de nata será sempre um pastel de nata!
Mas o mais deprimente nesta história é que a minha amiga italiana ainda nem sequer provou piza com fruta…quem sabe o que poderá acontecer se provar, ela que é fã de bacalhau à Brás!


Pequenas coisas


Hoje saí. Ao fim de 3 dias em casa já estava a atrofiar. Saí cedo, antes que se instalassem os 37º previstos. As recomendações terapêuticas indicavam as caminhadas como parte da minha recuperação. Era isso que ia fazer, caminhar. Vesti roupa confortável e calcei os ténis da ginástica a que já não vou há quase 2 anos.
Não costumo passear de manhã, a um dia de semana, pelas ruas da urbanização onde moro há quase 20 anos. Sozinha, sem nada nem ninguém a apressar-me, pude apreciar cada espaço, cada som, cada cheiro. Espaços, sons e cheiros que bem conheço mas a que raramente presto atenção.
Moro numa urbanização relativamente plana, cujo traçado das ruas, em quadrícula ortogonal, permite percursos longos mas algo monótonos pois os edifícios de apartamentos são todos iguais e desinteressantes. A orientação este-oeste dos arruamentos torna-os luminosos, banhados pelo sol nascente. A cidade romana de Conímbriga, a pouco mais de 1 km de distância, bem podia ter inspirado o traçado desta urbanização e teríamos a praça (fórum) na interseção do cardo máximo, rua principal com traçado norte-sul, com o decumano máximo, com traçado este-oeste. Em vez disso temos uma praça entre 2 arruamentos. Adiante.
Opto por começar pela rua das moradias, junto à floresta.
Àquela hora apenas se ouviam os sons da natureza, a maioria das pessoas já tinha saído para os seus empregos e os miúdos para a escola, último dia de aulas! Hurra! A vivência é completamente diferente ao fim do dia em que a praça se enche de crianças e jovens, chegados da escola, a jogar à bola, a andar de bicicleta ou simplesmente a brincar no escorrega e as esplanadas se animam com gente para quem um dia de trabalho acaba melhor se for a conviver, com uma fresquinha na mão.
O chilrear cortava o silêncio. Constato que esta é a banda sonora do sítio onde moro. Maravilhoso. Não sou entendida em aves e não identifico os pássaros, apesar de perceber bem a diferença entre uma andorinha, uma garça, um corvo, uma águia e um pelicano, mas reparo que a fauna deve ser generosa pois apercebi-me de sons distintos: o chilrear cantarolado, um arrulhar de rola e uns estalinhos que um passarito fazia pousado num beirado. Ao longe ouvi cacarejar.
Ao meu passar as lagartixas fogem e escondem-se.
A zona das moradias é a mais verdejante, não só porque confina diretamente com a floresta, onde no outono vamos apanhar medronhos e de onde saem trilhos que o meu marido percorre de btt nas manhãs de domingo, mas também porque os jardins exibem as mais diversas espécies de árvores, arbustos e demais vegetação ainda florida nesta altura do ano. Há jardins exuberantes na minha urbanização, alguns lembram os trópicos, bem ao estilo colonial, mas outros há bem mais autóctones. Um grande pinheiro manso sombreando uma casa branca recorda-me tempos de infância.
Continuo a caminhar e constato com agrado que mesmo nas ruas dos prédios o verde é uma constante. As grandiosas árvores que pontuam os passeios já têm a altura dos prédios de 4 pisos e as varandas e floreiras estão repletas de plantas. Há divisões em alguns apartamentos que nem devem ver a luz do dia tal a luxuriante vegetação que literalmente cobre as janelas. Há também nestes prédios autênticos jardins, de flores, de catos, catos de várias formas e tamanhos, outros com pequenas árvores e arbustos, outros ainda de ervas de cheiro. Na nossa floreira temos alecrim. Alecrim com perfume tão intenso e delicioso que é sempre usado nos assados e na linguiça regada com mel. Quando floresce aparecem abelhas…gosto de pensar que é este o nosso modesto contributo para a não extinção das abelhas.

O calor começava a apertar. Voltei para casa, queria acabar de ler “A ruína” de Jennifer Egan.

Mãos que salvam

Lá fora estavam mais de 30º mas eu tremia de frio. O ar condicionado não permitia uma temperatura amena, naquela unidade não se arrisca o desenvolvimento de bactérias e outros “bichinhos”. O facto de estar em jejum há mais de 14 horas também ajudou ao arrefecimento do corpo e depois, claro, estava como vim ao mundo, apesar do lençol por cima. Definitivamente não era medo, era frio, só frio.
Levaram-me para um átrio/corredor que dá acesso ao bloco operatório. Do local onde estava podia ver o corrupio de médicos e enfermeiros a entrar e a sair do bloco. Podia observar como se processa a desinfeção dos cirurgiões, esfregando bem as mãos, unhas e braços, antes de empurrar a porta do bloco com o pé, mantendo os braços para cima, não tocando em nada.
Li há tempos que os fatos e batas usados no bloco operatório são verdes porque é a cor onde menos se nota o vermelho do sangue, mas também poderiam ser verdes por ser a cor da esperança. A esperança é um sentimento constante naquele local, nem fazia sentido ser de outra forma.
Como os marcianos, também aquelas equipas são compostas de seres de outro mundo, pelo que o verde está corretíssimo!
Um médico foi chamado ao bloco. “Vou só comer qualquer coisa” disse. Eram 2 horas da tarde. Sei que as cirurgias tinham começado às 7:30 da manhã, a minha seria a 4ª e última operação do turno da manhã…acabou pelas 15:30! Poucos minutos depois apareceu o tal médico, trazia na mão um daqueles pãezinhos pequenos que são servidos nas refeições das cantinas, individualizados num involucro de plástico, só assim, o pão seco, sem nada lá dentro, e um pacotinho de leite…eram 14:00 horas! Comeu à pressa, desinfetou-se e entrou no bloco.
Passou outro médico, reconheci-o: cirurgião de topo, descascava uma laranja com as mãos. Este gesto tão simples, saciando uma necessidade básica, senti-o como uma bofetada, daquelas bofetadas boas que nos fazem acordar para a vida! Aquelas mãos, as mãos que salvam tantas vidas, descascavam uma laranja, entre blocos, entre cirurgias…entre vidas!
Os médicos e enfermeiros que trabalham num hospital não têm hora de almoço. Trabalham em turnos contínuos e devem estar sempre disponíveis para servir as necessidades dos doentes. Comem qualquer coisa, à pressa, se tiverem tempo almoçam, se tiverem tempo, se for um turno bom.
Vieram-me buscar, finalmente.
Entra-se no bloco operatório completamente despido, despido de preconceitos, de títulos e de vaidades. Sem aliança, anéis, brincos ou piercings, sem verniz nas unhas, sem próteses, sem qualquer peça de roupa. Só nós, o que mais genuinamente somos, sem nada que nos esconda as imperfeições. Como nascemos assim nos entregamos àquelas mãos, mãos que salvam vidas, mas mãos que, como as nossas, também descascam laranjas.
Começam os procedimentos e protocolos para a anestesia. Depois de me enfiarem pelo braço uma agulha que disseram ter sido bom eu não ter visto (!), foi tudo muito rápido. Foi o tempo de assinar o consentimento e de me fazerem umas perguntas. Depois comecei a ficar zonza, o ponto de luz por cima de mim fragmentou-se como uma pintura cubista. “Estou a ficar zonza, suponho que isto seja normal”, disse. Sorriram e ainda senti uma mão carinhosa na minha testa, soube-me bem, depois, “apaguei-me”.
Correu tudo bem, foi um procedimento muito simples.
Durante 2 dias testemunhei os medos, as angústias e a esperança de quem espera por uma intervenção cirúrgica num Centro de Cirurgia Cardiotorácica. Testemunhei a alegria renovada a cada dia de recuperação. Testemunhei a cumplicidade e solidariedade entre doentes. Testemunhei a dedicação, carinho e simpatia dos profissionais de saúde, auxiliares e administrativos.

Contrariamente ao título do livro que li nos 2 dias de internamento, felizmente, este não foi “O fim da história”.

Chá, café...ou um copo de vinho tinto

  Ouvi o silvo da chaleira ao lume, a água fervia, o chá ficaria pronto num instante… Mas não tenho por costume fazer chá, nem oferecer ch...