O autocarro vinha apinhado, como
todos os dias àquela hora de fim de tarde. Os muitos que formávamos fila à sua
espera fizemos-lhe sinal de paragem. Parou e, apesar de estar completamente
cheio, abriu as portas, não apenas para que alguns passageiros saíssem, mas
também para que entrassem tantos quantos conseguissem. Quando as portas se
abriram foi notório o movimento dentro do autocarro. Um ondular de corpos
compactados numa deslocação sincronizada no sentido da saída. O espaço
libertado foi rapidamente preenchido por outros corpos que tomaram o lugar
disponível, voltando a encher completamente o veículo. O meu pequeno corpo
encontrou-se no meio daqueles corpos cansados e suados ao fim de um dia de
trabalho, de escola ou de passeio. A descompressão das preocupações e do
trabalho físico começava a acontecer tornando os corpos lânguidos, moldáveis e
peganhentos.
Encaixei-me como consegui e
transferi a pesada mochila para a frente do meu corpo tentando manter uma bolsa
de ar respirável, difícil do meu metro e meio de altura, e evitando o contacto
direto com os corpos dos outros passageiros. Com o movimento da mochila os
corpos agitam-se, ajeitam-se, reposicionam-se. Uma pisadela, um cotovelo
inoportuno, um braço esticado segurando a pega que pende do varão metálico
junto ao teto. Mau, este braço levantado com a axila à altura do meu nariz não estava
nos meus planos. Ligeira rotação na esperança de me conseguir colocar numa
posição mais favorável. Forço o movimento. A mochila cheia e pesada roça os
outros corpos, com as arestas e vértices das pastas, cadernos e réguas agride os
alguns passageiros. Paciência, antes um caderno espetado nas costelas de outra
pessoa que um sovaco no meu nariz. Resmungam: “Malditos miúdos! Com as suas
mochilas não têm respeito por ninguém!”. Pois sim. Sinto-me triplamente
agredida. Agredida fisicamente porque tenho de carregar a pesada mochila e
ainda assim conseguir encaixar-me no meio das outras pessoas, agredida
verbalmente porque sou vítima de injúrias e agredida psicologicamente porque escolher
entre o queixume de um adulto e oxigénio não é fácil para alguém de 12 anos.
Nova paragem. Novo movimento de
corpos. Novo reposicionamento, agora já mais perto da porta de saída. Se
houvesse um espacito lá mais atrás. Parece-me que sim, há um espaço deixado
vago (espaço, não lugar), que não foi ocupado no último reposicionamento. Acho
que consigo lá chegar. “Com licença, com licença”. Avanço lentamente,
contorcendo-me em movimentos o mais fluídos possíveis, tendo sempre como escudo
a pesada mochila que vai abrindo caminho entre resmunguices e queixumes. Estou
quase, já sinto o ar menos pesado, estico o braço e agarro um varão vertical.
Com a força do braço puxo o peso do corpo e da mochila para junto do varão.
Consegui!
Volto a colocar a mochila às
costas e continuo a viagem mais descontraída, com espaço e oxigénio e sem mais
contactos corporais adversos. Aqui até tenho visibilidade para o exterior,
podendo apreciar a paisagem. O autocarro percorre as movimentadas ruas da
cidade que já se encontram artificialmente iluminadas. É linda a cidade! Nova
paragem e nova movimentação. Agora bem mais vazio o autocarro até já tem livres
alguns lugares sentados. Permaneço de pé, já não falta muito para sair. Mais
uns minutos e finalmente o autocarro pára na minha paragem de saída. Desço
orgulhosa do autocarro: sobrevivi a mais uma hora de ponta!

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