Lx 1982 - hora de ponta.




O autocarro vinha apinhado, como todos os dias àquela hora de fim de tarde. Os muitos que formávamos fila à sua espera fizemos-lhe sinal de paragem. Parou e, apesar de estar completamente cheio, abriu as portas, não apenas para que alguns passageiros saíssem, mas também para que entrassem tantos quantos conseguissem. Quando as portas se abriram foi notório o movimento dentro do autocarro. Um ondular de corpos compactados numa deslocação sincronizada no sentido da saída. O espaço libertado foi rapidamente preenchido por outros corpos que tomaram o lugar disponível, voltando a encher completamente o veículo. O meu pequeno corpo encontrou-se no meio daqueles corpos cansados e suados ao fim de um dia de trabalho, de escola ou de passeio. A descompressão das preocupações e do trabalho físico começava a acontecer tornando os corpos lânguidos, moldáveis e peganhentos.

Encaixei-me como consegui e transferi a pesada mochila para a frente do meu corpo tentando manter uma bolsa de ar respirável, difícil do meu metro e meio de altura, e evitando o contacto direto com os corpos dos outros passageiros. Com o movimento da mochila os corpos agitam-se, ajeitam-se, reposicionam-se. Uma pisadela, um cotovelo inoportuno, um braço esticado segurando a pega que pende do varão metálico junto ao teto. Mau, este braço levantado com a axila à altura do meu nariz não estava nos meus planos. Ligeira rotação na esperança de me conseguir colocar numa posição mais favorável. Forço o movimento. A mochila cheia e pesada roça os outros corpos, com as arestas e vértices das pastas, cadernos e réguas agride os alguns passageiros. Paciência, antes um caderno espetado nas costelas de outra pessoa que um sovaco no meu nariz. Resmungam: “Malditos miúdos! Com as suas mochilas não têm respeito por ninguém!”. Pois sim. Sinto-me triplamente agredida. Agredida fisicamente porque tenho de carregar a pesada mochila e ainda assim conseguir encaixar-me no meio das outras pessoas, agredida verbalmente porque sou vítima de injúrias e agredida psicologicamente porque escolher entre o queixume de um adulto e oxigénio não é fácil para alguém de 12 anos.

Nova paragem. Novo movimento de corpos. Novo reposicionamento, agora já mais perto da porta de saída. Se houvesse um espacito lá mais atrás. Parece-me que sim, há um espaço deixado vago (espaço, não lugar), que não foi ocupado no último reposicionamento. Acho que consigo lá chegar. “Com licença, com licença”. Avanço lentamente, contorcendo-me em movimentos o mais fluídos possíveis, tendo sempre como escudo a pesada mochila que vai abrindo caminho entre resmunguices e queixumes. Estou quase, já sinto o ar menos pesado, estico o braço e agarro um varão vertical. Com a força do braço puxo o peso do corpo e da mochila para junto do varão. Consegui!

Volto a colocar a mochila às costas e continuo a viagem mais descontraída, com espaço e oxigénio e sem mais contactos corporais adversos. Aqui até tenho visibilidade para o exterior, podendo apreciar a paisagem. O autocarro percorre as movimentadas ruas da cidade que já se encontram artificialmente iluminadas. É linda a cidade! Nova paragem e nova movimentação. Agora bem mais vazio o autocarro até já tem livres alguns lugares sentados. Permaneço de pé, já não falta muito para sair. Mais uns minutos e finalmente o autocarro pára na minha paragem de saída. Desço orgulhosa do autocarro: sobrevivi a mais uma hora de ponta!

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