O Jogo




Os jogadores posicionam-se nos seus lugares, a bola encontra-se no centro geométrico do campo retangular. Tudo no campo é geometria: linhas, pontos, áreas. As linhas brancas no relvado mostram a perfeita simetria em que se joga, meio campo para uma equipa e outro meio campo para a equipa adversária. A simetria do campo, o mesmo número de jogadores de cada lado e até o posicionamento dos 3 árbitros, indicam que se trata de um jogo geometricamente equilibrado… e seria, se não fosse a esfera o elemento principal!

Soa o apito do árbitro dando início à partida e a bola passa de pé para pé, de pé para cabeça, de cabeça para cabeça, de cabeça para pé, chutada e cabeceada com precisão. As linhas da trajetória da bola são intersetadas com agilidade, criando novas linhas, retas, curvas, hipérboles, às vezes espirais. O campo é preenchido com desenhos abstratos e imaginários formados pelo trajeto da bola. Traços curtos, traços longos, criando ângulos, interseções, diagonais, paralelos. Linhas em todas as direções preenchendo completamente a área de jogo e muitas vezes saindo mesmo do perímetro do campo. O equilíbrio estático inicial perde-se no decorrer do jogo, a simetria dilui-se, a geometria transforma-se em arte.

Ouvem-se gritos eufóricos, soa o apito, foi golo! Desperto das minhas fantasias geométricas e festejo com o grupo o golo da nossa equipa. 1 a 0, estamos a ganhar, é matemático! Tão matemático como o discurso de um ex-treinador que dizia que o guarda-redes não faz a equipa ganhar jogos, que, na melhor das hipóteses, não sofre nenhum golo o que, matematicamente, não contribui para a vitória, uma vez que a vitória é definida, matemática e logicamente, pelo superior número de golos marcados relativamente à equipa adversária. Portanto, como não são, estatisticamente, contabilizadas as defesas que um guarda-redes faz, com exceção às grandes penalidades, apenas os golos sofridos, podemos concluir que este jogador é, matematicamente, um elemento negativo na equipa… bem, se o seu percurso for imaculado, com zero golos sofridos, poderá orgulhosamente considerar-se um elemento nulo na equipa! O referido argumento também sustentava a iluminada tese que defendia que um guarda-redes nunca poderia ser considerado o melhor jogador da equipa! A questão coloca-se agora: é o guarda-redes parte da equipa?! Infelizmente tenho assistido a algumas atitudes em que o guarda-redes é retirado, eliminado ou omitido do conjunto, como não fazendo parte do jogo, da estratégia, do grupo. Felizmente esta postura não é partilhada pelos atuais treinadores nem pela equipa que está a jogar.

Entretanto o jogo continua a decorrer, em grande velocidade e com empenho de ambas as equipas. A bola não pára, vai percorrendo o campo em variações de direção constantes, passando de jogador em jogador em avanços e recuos que por vezes, ó sacrilégio, são feitos estrategicamente para o guarda-redes que redistribui o jogo. Voltam ao ataque, a bola avança no meio campo adversário, é intersetada e muda de direção, é tempo de defender. No contra-ataque da equipa adversária o defesa, eficaz, interceta a bola, chutando-a para longe da sua área, para longe de perigo. Nova disputa de bola, com mudanças de direção constantes, fintas, passes e algumas faltas. Todos querem ganhar, todos querem marcar golo. O golo é o momento do jogo.

Apito de final de jogo. O golo marcado com o nulo sofrido deu-nos o saldo positivo de 1 golo, por isso ganhámos, é matemático! Mas futebol não é matemática, nem geometria, nem física, futebol é para além disso. Futebol é o espetáculo que aqueles miúdos nos proporcionam no decorrer dos 70 minutos, independentemente do resultado. Futebol é o passe certeiro, o corte oportuno, a finta que atordoa, o duelo ganho, a defesa magistral, o golo fantástico! É a sua paixão, a sua arte, o seu esforço, o respeito pelo adversário, os abraços encharcados em suor e chuva, de alegria ou de consolo, no fim do jogo.

Irmãos II




Há momentos especiais que nos ficam eternamente gravados na memória, os quais por vezes evocamos como analgésicos para minorar as tristezas que surgem. Um desses momentos foi quando saí da sala de partos, de maca, com a minha filha mais nova, recém-nascida, no colo. Ao aproximar-me do corredor da enfermaria para onde iríamos, vislumbrei duas silhuetas que me eram familiares e nos esperavam já com alguma preocupação e ansiedade (algumas complicações pós-parto provocaram bastante demora na sala de partos). O meu filho de 3 anos e o meu marido aguardavam-nos, de mãos dadas, à porta do corredor da enfermaria. Nunca mais esqueço aquela imagem e o olhar daquele menino lindo à minha espera, à nossa espera, segurando numa mão um ramo de rosas vermelhas enquanto a outra mãozita apertava a grande e protetora mão do pai.

Outro momento especial foi quando regressámos a casa, vindas da maternidade. Mal entrámos e nos instalámos no sofá, eu sentada e a bebé no ovito, o irmão foi radiante buscar todos os presentes para oferecer à recém-nascida, dando-lhe as boas vindas. A cada embrulho aberto o rosto dele iluminava-se de expectativa e de felicidade, orgulhoso do seu papel de irmão mais velho e verdadeiramente feliz pela chegada da irmãzinha. No meio de tantos presentes para a bebé, o pai pegou num embrulho e ofereceu-lho dizendo que era um presente que a irmã tinha trazido para ele… A expressão dele, ao início de olhos arregalados, meio incrédulo com algo tão bom e depois, com o sorriso rasgado, completamente feliz e agradecido, ilustrou toda a alegria e amor pela irmã que a partir daquele momento se instalou definitivamente no seu coração.

Os momentos de ternura entre os dois irmãos foram amplamente demonstrados, apreciados e eternizados em fotografias quando eram mais pequenos. À medida que cresceram e que o seu mundo se alargou, em horizontes e conhecimentos, foi sendo mais esporádica a demonstração de afeto e as discussões mais frequentes. Naturalmente, como dois irmãos com uma relação perfeitamente saudável, passam dos abraços e carinhos às celeumas com a mesma rapidez com que o Zorro marca os seus opositores com o famoso Z.

Apesar da, muitas vezes fingida, indiferença, a cumplicidade entre os dois irmãos existe, mas cada um desempenha o papel que estrategicamente assumiu na relação. O de irmão mais velho que acarinha com meiguice a irmãzinha mais nova, o de irmã mais nova mas já crescida a quem os excessos carinhosos do irmão exasperam. O de irmão mais velho e sabichão pronto para atormentar a pequena, o de irmãzinha mais nova, vítima da tirania do crescido… Por vezes esquecem os seus papéis e são apenas eles, irmãos amigos. Por vezes esquecem os papéis que se propuseram representar e andam abraçados, conversando animadamente. Por vezes ela pede-lhe ajuda e ele acede sempre. Mas sempre, mais ou menos mascarado, camuflado ou demonstrado, o amor que os une vai deixando um traço nas suas ações, nas suas vidas. Um traço que os marca e vai desenhando o futuro da sua relação. Pelo que tenho assistido, acho que o desenho, em constante expansão, será sempre muito alegre, colorido, cheio de animação, ação e aventura.

Muralha




Os processos de capa verde empilhados à minha volta formam uma espécie de muralha alta que me impede de alargar os horizontes, de ver para além deles. Enclausurada, sinto-me como num sonho desagradável, tento correr mas as pernas não respondem à ordem dada pela vontade de fugir, elas mexem mas não avançam, faço um enorme esforço mas não saio do lugar. Como Penélope tecendo um sudário enquanto aguardava o regresso do seu marido Ulisses da guerra de Tróia, também eu vou informando os processos durante o dia, para de noite alguém voltar a colocar processos na minha secretária, mantendo a pilha alta. As pedras da muralha são derrubadas mas logo a mesma é reconstruída.

Na impossibilidade de fugir, refugio-me cá dentro, isolando-me do que me atormenta. Fico sozinha no interior da muralha, eu, os processos, o computador…e o meu pensamento, porque esse é livre, não se confina. Ponho os auscultadores e, contagiando-me pela música, abstraio-me da envolvente e voo liberta. Alternando com as questões práticas, funcionais, legais e cada vez menos estéticas, o pensamento divaga e consigo sentir-me noutro lugar.

Sinto o cheiro do alho frito em azeite, pronto a receber a broa de milho esboroada e as couves migadas, às quais adicionarei uns salpicos de vinagre que libertarão o seu odor acre, proporcionando-me uma viagem às Beiras e aos jantares de amigos. Abro um vinho tinto que me transporta a África do Sul e à cidade do Cabo e logo me lembro dos marcadores de copos em madeira e missangas, com a forma de animais selvagens. Sobre uma tosta coloco um aromático queijo da Serra e visualizo os vales férteis e verdes que servem de pasto às ovelhas, rego o queijo com mel de rosmaninho e, enquanto o líquido espesso e translúcido escorre sobre a tosta, vejo-me a correr num campo primaveril coberto de flores silvestres, amarelas, roxas e brancas, o sol a bater-me nos olhos, encandeando-me. A luz branca intensa, do papel virtual, no ecrã do computador desperta-me para a necessidade de terminar o trabalho.

Mais umas linhas escritas de análise técnica, mais um processo despachado. Uma pedra da muralha derrubada e consigo ver mais um pouco da parede à minha frente. Vejo o recado para apagar a luz quando sair e o desenho que a minha filha fez. Abre-se a porta e entra alguém, ó, não! Alguém com um processo na mão. O troço da muralha é reconstruído, já não vejo o desenho.

Isolo-me dentro do espaço muralhado, oiço apenas a música, observo as letras que já compõem a nova informação. De olhar desfocado as letras ganham vida, são pessoas, muitas, ao longe. Aproximo-me e apercebo-me que os corpos estão seminus, sem complexos, uns deitados, outros em pé a jogar, alguns, mais pequeninos, a brincar, e outros ainda a passear à beira mar, deixando que as ondas lhes molhem os pés descalços. Também eu lá estou, a flutuar, deixando-me ir no ondular fresco das águas atlânticas. O tempo pára na tranquilidade do momento. Deixo-me ir, relaxo, sinto-me bem. O sol escalda-me a pele. É bom sentir o seu calor contrastando com a frescura do mar. Mas o sol está forte de mais, encandeia-me. E novamente a luz branca intensa à minha frente desperta-me para o trabalho.

Mais umas considerações e remissões para a legislação específica aplicável. Mais uma proposta de decisão e novo processo despachado. Mais uma pedra da muralha derrubada. É hora de sair. Amanhã quando voltar a muralha estará reconstruída…

Crónica de uma "uber" doméstica




Sexta-feira é já amanhã e não sei se terei texto para publicar no blogue. Ontem tirei um dia de férias, o que poderia querer dizer que tive muito tempo livre, para descansar, para adiantar mais uns capítulos do livro que ando a ler, para escrever um ou mais textos ou simplesmente para estar recostada no sofá a dormitar ou a visionar um dos muitos filmes em lista de espera…mas não!

Em primeiro lugar desengane-se quem pensa que dia de férias significa ficar a dormir até mais tarde. Acordei à mesma hora de sempre, o que, apesar do sono crónico, não me desagradou completamente pois assim teria possibilidade de fazer muito mais coisas, ou simplesmente teria muito mais tempo para gozar o facto de não fazer absolutamente nada. Além disso queria ir nadar antes de me recostar descontraidamente a beber o primeiro café do dia. Já que tinha planos tão bons para o dia, o melhor mesmo foi acordar cedo e levar, de carro, como habitualmente, os miúdos às respetivas escolas. Depois da ronda diária pelos estabelecimentos de ensino voltei a casa e preparei a mochila para a piscina que só abriria daí a meia hora.

Os 50 minutos que passei dentro de água foram efetivamente revigorantes! Isso sim é aproveitar bem o dia de folga! A piscina estava por minha conta, o sol entrava pelos janelões e refletia nas paredes os reflexos tremeluzentes da água e a sua luz no fundo da piscina, iluminando num azul cristalino todo o volume de água. Num misto de relaxamento e cansaço, daquele cansaço bom que nos faz sentir vivos e poderosos, saí verdadeiramente feliz da piscina.

Em casa, esganada que já estava com fome, apressei-me a barrar com manteiga o pão de sementes que destinara para acompanhar o café longo. Deixei-me apreciar e saborear o momento. Com o estômago mais apaziguado e já com cafeína a correr nas veias sentei-me no sofá, finalmente! Entre a leitura do livro e espreitadelas no telemóvel o tempo foi passando. Uma vez que estava em casa, a pretexto do aniversário do meu filho, e já que era dia de não haver aulas da parte da tarde, não fazia sentido não ir almoçar com ele e com a irmã na sua pizaria preferida. A manhã passou num instante e, analisando-a bem, quase nem deu para aquecer o sofá nem para avançar muito no livro.

Voltei a pegar no carro e fui buscar a mais nova à escola, enquanto, conforme previamente combinado, o mais velho foi ter à pizaria. Estacionei e entrámos na pizaria que estava cheia. Devia ter reservado! Ainda nos conseguiram disponibilizar uma mesita de recurso e pudemos apreciar as maravilhosas pizas…Isto quem comeu piza. Motivada pela manhã de natação resolvi escolher uma lasanha de legumes, por certo uma opção mais saudável que a piza, pensava eu…

Terminada a refeição, finalizada com um café para desenjoar do exagerado molho da lasanha, voltámos ao carro e lá fui, novamente, levar a mais nova à escola pois, apesar de não ter aulas, tinha ensaio do coro. Eu e o mais velho voltámos para casa…mas por pouco tempo. Nem uma hora estivemos em casa e tive de pegar no carro para o levar ao treino. É verdade que nos outros dias ele vai a pé, aquela meia hora a subir até ao estádio, mas ontem era aniversariante, o que deverá implicar ter algumas regalias, além disso eu estava em casa, supostamente por ele.

Levei-o ao treino e voltei para casa. Sentei-me ao computador mas não comecei logo a escrever. Entre ler as notícias, saber das novidades, fazer umas publicações de estado na rede social favorita e tentar avançar de nível no Mahjong, o que não consegui, passou menos de uma hora. Ainda tentei inspiração para escrever, mas ela não apareceu. De todo o modo não teria conseguido escrever nada porque o telefone tocou, sendo a minha filha a pedir, já que estava em casa, disponível (!), para a ir buscar à escola e levar para casa para fazer um trabalho. Pequei novamente no carro e voltei, mais uma vez, à escola. Levei-a a casa mas só entrei para ir buscar os sumos que levaria para o lanche da equipa do aniversariante.

Entrei mais uma vez no carro e antes de me dirigir ao estádio passei na pastelaria para levantar o bolo de aniversário encomendado. Chegada finalmente ao estádio ainda decorria o treino. Esperei pelo fim do treino e das praxes ao aniversariante e entrei com os miúdos, diretora e treinadores da equipa, no balneário onde seriam cantados os parabéns, em moldavo…tradição enraizada na equipa desde que o Nikita fez anos. Acreditem quando vos digo que comer bolo num balneário não é das experiências gastronómicas mais apelativas, apesar do bolo ser maravilho, no entanto os rapazes, indiferentes ao cheiro, atacaram o bolo e os sumos como abutres à volta da carcaça de um animal putrificado (sim, esta é a analogia correta, considerando o odor, não do bolo, mas do espaço).

Voltámos para casa, sem sequer uma amostrazita de bolo para a irmã e pai do aniversariante, tal a voracidade dos atletas. Foi o tempo de nos arranjarmos e saímos de novo para jantar. Peguei no carro e consegui estacionar perto do restaurante. O jantar correu muito bem, animado, descontraído e com comida maravilhosa num ambiente muito agradável. Já tarde conduzi de volta a casa. Como é compreensível não seria àquela hora que iria escrever o texto para publicar no blogue, afinal não parei o dia inteiro, só queria deitar-me e enfim descansar!

Seixos no caminho




No centro da imagem branca de luz surgia o seu corpo nu. Olhava-me com a serenidade e o amor com que me olha sempre. No seu belo rosto não vislumbrei dor, angústia ou raiva. Sentada estava ali, apenas sentada, imóvel, expondo as marcas do seu corpo sofrido. Um corpo retalhado, mutilado, cortado e cosido. Corte após corte, costura, após costura, não se tornando porém um corpo inútil. O corpo que nunca deixou de ser um corpo disponível para trabalhar, para amar, para proteger, para aconchegar, para servir, guarda as marcas visíveis, em tatuagens de carne, de vitórias conquistadas, de sofrimentos sentidos, ultrapassados e recordados. Sentada na luz, imóvel, expõe o corpo mas não é o corpo que se vê, são as linhas e os pontos que o percorrem, que o desenham, que formam as cicatrizes que o marcam que se vêem, que se expõem e sobressaem.

Acordo sobressaltada, angustiada e impressionada pela imagem. Os sentimentos que me invadem são ambíguos. Apesar da crueldade da imagem do corpo retalhado, o sonho transmitia serenidade. A serenidade que alcança quem aceita transformar os momentos mais duros em caminhos a percorrer no encalço de uma paz interior. A serenidade de quem corajosamente enfrenta as batalhas com a força do amor. A serenidade de quem sabe transformar os triunfos, tatuados em carne, em dádivas.

Com a imagem cravada na memória percorro com os dedos as minhas próprias cicatrizes. Cicatrizes que são tatuagens de dor e de amor. Tatuagens que não enfeitam o corpo mas que o deixam marcado em histórias de vida. Marcas que são troféus cravados na carne. Com o exemplo aprendi a aceitar corajosamente todas as batalhas que me são apresentadas, com o exemplo aprendi a lutar silenciosamente mas com determinação e com o exemplo aprendi a agradecer cada superação, cada vitória. Porque é sentindo-me agradecida, é vivendo e gozando cada momento com amor e alegria, que melhor honro os troféus cravados no corpo.

Cada marca, cada cicatriz, cada ruga, cada linha desenhada no corpo, tem uma história, a nossa história. A história da nossa vida que se quer preenchida e vivida na sua plenitude, nos bons e nos maus momentos. As marcas, as cicatrizes, as rugas e as linhas desenhadas no nosso corpo são como pedras no caminho, vamo-las recolhendo, acumulando o seu peso. No fim da viagem se olharmos para trás observamos o maravilhoso caminho que percorremos, limpo de pedras!

Laços de sangue




Polvilho a carne com malagueta moída, um pouco de sal, orégãos e tomilho. Na estação de rádio toca mais um sucesso dos anos 80. É impossível não dançar. Enquanto, agarrada à colher de pau, faço uma espécie de coreografia, canto desafinada o refrão da canção. A propósito desta música recordo uma muito particular ida ao cinema na minha adolescência. No início dos anos 80 a minha tia mais nova levou os 6 sobrinhos mais velhos ao cinema para que os adolescentes e jovens da família convivessem num ambiente que lhes fosse estimulante. Independentemente da temática e qualidade do filme, que recordo com um sorriso, o que mais me marcou nessa ida ao cinema foi sentir-me parte de um grupo, de uma família unida, de pais, irmãos mas também avós, tios e primos.

Efetivamente essa união familiar tem-se manifestado forte em variadíssimas ocasiões, nas boas e nas menos boas. O elo que nos une é mais do que um elo de sangue, é um elo de amor. Apesar das diferenças que nos caraterizam, com personalidades e feitios distintos, sabemos que podemos contar sempre uns com os outros, que apesar de alguma eventual desavença estarão lá para nós, para o que precisarmos, sabemos que não nos deixarão desamparados. É claro que, como em todas as famílias, há sempre uns mais impulsionadores desta dinâmica familiar. E ainda bem porque graças a eles, apesar das distâncias físicas, vamos mantendo um contacto regular e encontros com alguma periodicidade.

Dos piqueniques familiares anuais, aos fins de semana de primos, passando pelos almoços e jantares, encontros familiares alargados, casamentos, batizados e natais, todas as oportunidades servem para fortalecer os laços familiares, no entanto, é nas pequenas coisas, nos pequenos gestos e nos momentos mais difíceis que se revela a verdadeira união familiar. Tenho a dizer que sou realmente abençoada com uma família maravilhosa.
Tenho testemunhado relatos de famílias verdadeiramente extraordinárias, de famílias que se cuidam, protegem e amam numa dimensão cada vez mais difícil de encontrar, consequência muitas vezes das distâncias, das rotinas e da excessiva ocupação pessoal. São famílias que se unem e se revezam no cuidado a idosos, a doentes, deficientes, jovens, crianças ou recém-nascidos. São famílias que se unem na dureza do trabalho mas também na altura de celebrar!

Não escolhemos a família, é-nos dada como oferenda de nascimento. Escolhemos, no entanto, alimentar, ou não, essa relação. Manter a circular o sangue que nos une depende de nós, manter os laços unidos e apertados depende da nossa vontade, da nossa disponibilidade, da nossa entrega, do nosso amor. Mas não tendo escolhido a família onde nascemos a vida dá-nos a oportunidade de escolher a sua continuidade, criando um novo núcleo familiar, uma nova família que também terá de ser alimentada com carinho, dedicação, disponibilidade, momentos e com muito amor. Uma família que seja exemplo para as gerações seguintes e que se ramifique como uma árvore frondosa, cheia de vida, onde a seiva circula livremente, chegando em força a todos os seus frutos. Uma seiva feita de sangue e de amor.

Noite escura, sem luar...




A noite estava escura, sem luar. Atrevi-me a sair da proteção da tenda, calcei as botas às apalpadelas e dei um passo. A escuridão era total. Não tinha lanterna nem fogo nem nenhum ponto de luz. Também não sabia bem para onde me dirigir. Queria encontrar os meus companheiros mas, sozinha na noite, temia perder-me. Tentei encontrar algumas referências e decidir qual a direção a seguir porém, olhando em volta nada via, nem luz nem movimento. O terreno era ligeiramente inclinado e lembrei-me que tínhamos decidido montar as tendas na zona mais baixa do declive. Seria para cima o caminho. Dei uns passos a medo. Completamente sozinha na floresta e na escuridão total, avançava lentamente. Tinha percorrido alguns metros quando uma onda de pavor me percorreu. E se não os encontrasse? Já não conseguia voltar para trás. Tinha-me afastado bastante da tenda e, entre as árvores e vegetação, já não a conseguia ver. Sem luz nunca a encontraria de volta e não valeria a pena tentar fazer o percurso contrário, tinha noção que o mesmo não fora linear. Perante tal cenário tive de fazer um esforço para que o pânico não me dominasse, não me paralisasse. Tinha de sair dali, havia de ganhar coragem e avançar. A medo dei mais uns passos. A cada passo os sons da floresta pareciam ganhar vida. Rodeada de trevas, com o sentido da visão completamente anulado e a audição ganhando intensidade, deparei-me no meio de uma orquestra de sons estranhos e desconhecidos. Ouvia movimentos, rastejar, estalidos, piares, o som das árvores, das folhas, dos ramos, sons da brisa, sons de um mundo novo e desconhecido, tão cheio de vida, quando pensamos que apenas existe silêncio. Mais um estalar, movimento, folhas e ramos remexidos, partidos...passos! Paro. Pára o som também…são os meus passos! Respiro fundo e ganho coragem de retomar o caminho. Mais uns passos e a cada passo novos ruídos, novos medos. Não sei bem para onde vou mas continuo a andar, devagar. Paro de novo e percorro com o olhar a floresta à minha volta. Nada. Nem luz nem o som de vozes. Estou completamente só. Continuo o percurso que tenho esperança me leve aos meus amigos. Avanço mais um pouco na floresta, com passos curtos e inseguros, não vejo o chão, não sei o que piso, apenas oiço os gemidos dos galhos partidos, das folhas pisadas, dos ramos abanados à minha passagem. Ali! Uma luz, vejo uma luz, um clarão ainda difuso mas visível! Apresso o passo. O coração dispara. À medida que avanço, agora mais rapidamente, torna-se nítida a fogueira, a luz das chamas mais intensa, dominando a noite, oiço vozes. Os sons noturnos da floresta são agora completamente abafados pela melodia de uma guitarra, habilmente dedilhada, por vozes alegres, conversando e cantando. Corro naquela direção e alcanço o grupo animadamente reunido ao redor da fogueira. “Sempre vieste” dizem. Aceno afirmativamente, meio envergonhada. Sento-me e deixo-me envolver pelo calor e reconforto da luz e do fogo. Mais tranquila relaxo e tento esquecer aquele percurso. Começo a conversar e a cantar. Deixo que a paz e a alegria sejam os sentimentos que dominarão o que resta da noite. À volta da fogueira, enquanto conseguirmos fintar o sono, rimos, cantamos, conversamos, criamos e fortalecemos laços de companheirismo e amizade que nos ajudarão a crescer. Sinto-me verdadeiramente feliz e orgulhosa e assim me sentirei durante todo o acampamento, durante todos os acampamentos e atividades.

Apesar do esforço nunca mais consegui esquecer aquela primeira noite do meu primeiro acampamento como escuteira, teria eu uns 11 ou 12 anos. Por muito difíceis que tenham sido, há momentos que devemos sempre recordar porque foram passos importantes que demos no percurso da nossa vida. Momentos superados que nos fizeram crescer e aprender. Eu aprendi que nunca se vai para o campo sem uma lanterna!

Chá, café...ou um copo de vinho tinto

  Ouvi o silvo da chaleira ao lume, a água fervia, o chá ficaria pronto num instante… Mas não tenho por costume fazer chá, nem oferecer ch...