O Ginásio




Esta semana abriu um novo ginásio na minha área de residência. Um último piso envidraçado com vista privilegiada para os quatro pontos cardeais. O interior é espetacular, com uma arquitetura e design inspiradores, com frases motivacionais espalhadas pelas paredes e chão, bonito, elegante e dinâmico, transmite tanta energia que acredito que apenas entrando lá devo queimar umas quantas calorias.

Com o objetivo de aumentar a intensidade e frequência de exercício físico na minha rotina semanal e com a remota esperança de ficar com uma barriga igual à da rapariga do cartaz que anuncia o ginásio, muito remota mesmo já que a barriga da fotografia é sequinha e sem estrias adquiridas nas gravidezes, inscrevi-me orgulhosa, cheia de entusiasmo e vontade de começar.

Ainda antes da sua inauguração o ginásio promoveu demonstrações de algumas modalidades. Demonstrações anunciavam eles, mas aquilo foram aulas à séria, à bruta, sem dó nem piedade nem contemplações pelo grau de inexperiência dos ingénuos alunos – eu. Se na aula de mix dance andei aos papeis, rodando para a esquerda quando devia rodar à direita, cruzando a perna esquerda atrás da direita formando um X quando o suposto era fazer um V, ou um Z, eventualmente um W, sapateando quando o que se pretendia era um simples e elegante passo de samba, nada que não se resolva com mais duas ou três aulas, já para a aula de cycling fui armada em campeã, afinal não era a primeira nem a segunda vez que andava de bicicleta e com aulas de fitness  duas vezes por semana há nove meses havia de me aguentar a dar o máximo…até ao momento em que desse o “tilt”! Com a aula de balance encontrei o equilíbrio e a certeza que a inscrição no novo ginásio me proporcionará muita felicidade. O certo é que, para além do prazer que me proporcionaram, estas aulas iniciais operaram em mim uma instantânea mudança radical, que o diga quem nos dias seguintes à aula de cycling observou o meu andar!

A minha relação com o desporto nunca chegou a ter contornos de verdadeira seriedade, mas sempre foi de alguma proximidade e cumplicidade. Começou quando eu tinha 2 ou 3 anos e andei em aulas de ginástica no melhor clube de Portugal (!). Dessa altura apenas recordo aquilo que uma fotografia tirada no sarau me sugere: eu descalça, com uma saia muito mini que faria corar a Mary Quant e uma camisolita às riscas, empurrando um carrinho de mão vazio. Sim, a sério, um carrinho de mão. Penso que desde essa altura muito mudou na ginástica em Portugal.

Na primária andei no ballet, mas, apesar do esforço, do treino e de muita insistência, a minha congénita falta de flexibilidade nunca me permitiu o triunfo de conseguir fazer a espargata no ângulo perfeito de 180.º, pelo que ao fim de um ou dois anos desisti do ballet e fui para a natação, o suficiente para conseguir dar umas braçadas no mar, nas férias de verão, sem me afogar. Participei numa competição, e não devo ter ficado muito mal classificada, mas andar a fazer piscinas não era o que mais me fascinava na altura, e no fim da 4.ª classe, desisti. Enquanto miúda sempre me diverti muito e amiúde a andar de bicicleta, de patins e a jogar à bola na rua com os meus vizinhos e irmãos, no tempo em que ainda se podia jogar à bola em algumas estradas de Lisboa, tão escasso era o trânsito.

No liceu passava todos os intervalos a jogar ao “mata” ou a jogar andebol. Apesar da adaptação das regras ao nosso capricho e da falta de orientação especializada, havia a prática diária de atividade física e o meu corpinho Ucal, na altura ainda não existiam outras marcar de iogurtes, bem o demonstrava. No 12.º ano finalmente, com toda a folga de tempo que as 3 disciplinas proporcionavam (bons tempos esses do 12.º ano com apenas 3 disciplinas!), levei o desporto mais a sério e inscrevi-me no CDUL, na modalidade de andebol. Fui federada e joguei no campeonato distrital contra equipas como o Benfica e o Paço de Arcos, ou seria o Oeiras? Mas, como por alguma razão, que agora conheço, o desporto sempre fugiu de mim, ao fim de um ano o CDUL encerrou a secção de andebol feminino.

Na altura de escolher a área de ensino, do 9.º para o 10ª ano, estive mesmo para seguir desporto, como aliás os testes psicotécnicos recomendavam, mas fria e racionalmente decidi que o melhor seria seguir arquitetura, com o argumento que, se seguisse desporto, nunca faria arquitetura, mas seguindo arquitetura poderia continuar a praticar desporto. Assim que entrei na faculdade de arquitetura deixei de praticar desporto!

Quando acabei o curso, das primeiras coisas que fiz, provavelmente mesmo antes de começar a enviar CVs, foi inscrever-me numa piscina e voltar a ter aulas de natação, para adultos. É com orgulho que afirmo que ao fim de poucos meses já conseguia nadar os 4 estilos quase na perfeição e tinha finalmente aprendido a respirar! Como após um ano de ter terminado o curso e ter retomado aulas de natação consegui emprego longe de Lisboa, mais uma vez tive de abandonar a modalidade.

No início da minha vida adulta e profissional, fora de Lisboa, numa altura em que apenas nos grandes centros urbanos existiam ginásios e em que os atuais instrutores ainda usavam fralda, a oferta da prática desportiva para adultos resumia-se a aulas de ginástica que não eram mais que aulas de manutenção que quase nem me faziam transpirar. Entre as tais aulas de manutenção e alguns passeios de bicicleta, com maior ou menor grau de dureza e dificuldade, fui fazendo cada vez menos desporto. Nova mudança de emprego e de residência, o nascimento do filho, passados três anos o nascimento da filha, tudo foram motivos, ou desculpas, para serem cada vez mais esporádicas as atividades físicas. Ainda assim, nestes últimos 20 anos, muito mudou na oferta da prática desportiva para adultos e como sou uma rapariga sempre pronta a novos desafios, andei num ginásio, fiz hidroginástica, beneficiei do regime livre das piscinas para nadar enquanto a minha filha tinha aulas de natação sincronizada e andei assiduamente nas aulas de fitness que muito prazer me deram.

Mas agora tudo vai ser diferente, agora é que vai ser! E vai ser para a vida, nem que seja pela razão de a minha inscrição no novo ginásio estar associada a um desconto vitalício. Já me estou a imaginar daqui a vinte anos, quase com 70 anos (credo, isto dito assim até assusta!), com um corpinho magro e seco, a dar um bailinho de força, resistência e coordenação motora às miúdas de 20 anos que se inscrevam no ginásio pela primeira vez!

People are awesome



Estou completamente rendida ao Ser Humano. Descontando alguns exemplares que nada têm que possamos elogiar, a verdade é que o Homem é um ser admirável. Não pretendo enaltecer os feitos notáveis e que já constam de vários compêndios, mas é impossível ficar indiferente perante a capacidade do Homem ir à lua, atravessar oceanos, descobrir a cura de doenças, transplantar corações, idealizar e construir algo grandioso como A Sagrada Família ou algo simplesmente belo e perfeito como a estátua de David, compor e executar o sublime Requiem de Mozart, escrever o Memorial do Convento, escalar até ao topo do Monte Everest ou marcar um golo de pontapé de bicicleta!

Bem, será provavelmente exagerado colocar o pontapé de bicicleta ao nível de um transplante de coração, de um Requiem de Mozart ou de uma Sagrada Família, mas não deixa de ser algo belo e fabuloso, a ponto de colocar milhares de adversários de pé a aplaudir! São precisamente estas ações “menores” que eu quero enaltecer. E as ainda “menores”.

Se nos abstrairmos da violência, das agressões, da destruição, da falta de civismo e da estupidez crua e bruta, conseguimos encontrar qualidades maravilhosas no ser humano. Qualidades intelectuais, criativas, físicas, motoras, emocionais… Grandes obras ou pequenos gestos que nos tornam únicos e especiais e que fazem com que a nossa vida seja repleta de prazer e de momentos lindos.

Encantamo-nos com obras de arte excecionais, maravilhamo-nos com as mais incríveis conquistas desportivas, abismamo-nos e com os avanços científicos atingidos e orgulhamo-nos dos especiais entre nós. No entanto, se estivermos atentos conseguimos ver o maravilhoso que há nas pequenas coisas que cada um de nós concretiza.

Deslumbro-me com o encantador que é um pai a aconchegar um filho no seu colo, afagando-lhe os cabelos e secando-lhe o choro com beijos. Derreto-me com o riso de crianças nas suas brincadeiras descontraídas em que cabe o mundo inteiro. Delicio-me ao mergulhar num negro e profundo olhar, rasgado num sorriso, e sinto o prazer de encarar a simpatia de alguém, deleito-me a observar um corpo bem esculpido e gozo o prazer do seu abraço.

Fascina-me a rapidez, o humor e a acutilância com que surgem piadas, comentários e observações perante qualquer acontecimento. Terminando de ler um bom livro, que durante dias me proporcionou bastante prazer, reflito sobre a excecional capacidade de o autor criar o enredo, os pormenores da ação e dos lugares numa escrita atrativa, capaz de nos transportar para outra dimensão. Envolvida pela imensidão de milhares de espetadores vibro com a música, as luzes, efeitos especiais, com todo o ambiente criado, com a energia contagiante dos músicos e com a alegria e loucura do público, pulando e cantando. E vivendo estes momentos encho-me de felicidade e incho-me de orgulho pelo maravilhoso que os humanos conseguem ser, sentir e viver.

E para que eu considerasse o ser humano espetacular nem necessitava de me encantar com uma pirueta, um salto mortal, um passo de dança, uma nota musical, um traço numa tela, um poema, bastava ter provado chocolate! Um jantar de amigos, com várias iguarias, doces e salgadas, regado com bom vinho, com muita conversa e com muito riso é suficiente para exultar o ser humano nas suas várias dimensões. No entanto, revejo verdadeiramente a grandiosidade do Homem na simplicidade dos gestos e dos momentos quando a minha filha, no seu voluntariado, acarinha um deficiente profundo, quando o meu filho salta mais alto e mais longe e defende o que seria um golo certo e quando os meus pais com tanta sabedoria e amor me dão as melhores lições de vida.

" O melhor de mim"




Há um ano aceitei o desafio de escrever semanalmente um texto, sem tema pré-definido, para ser publicado de início num jornal digital e agora apenas no blogue que entretanto e para esse efeito criei. Foi com receio e com alguma insegurança, mas com muito entusiasmo, que aceitei o desafio. Desde as redações dos tempos de escola e dos trabalhos escritos na faculdade, não escrevia um texto para ser lido por terceiros e, nessa altura, apenas um número muito limitado de pessoas tinha acesso a esses trabalhos e redações. É certo que o resultado do meu trabalho profissional é concluído em forma de textos, mas são informações técnicas que nada devem à imaginação nem apelam à criatividade.

Semana após semana, os textos foram surgindo sempre, uns mais inspirados, outros mais divertidos, outros ainda mais sentimentais, mas o certo é que consegui ter todas as semanas um texto publicado, abordando temas que de início jamais imaginaria vir a tratar, expondo alguns dos meus sentimentos. Neste ano em que escrevi para mim, porque o gozo de escrever é imenso, e para os outros, sinto que muito se alterou em mim, estou melhor agora! Não quero cair no lugar-comum de dizer que me tornei uma pessoa melhor, que cresci, que aprendi, etc., sou a mesma pessoa, nem melhor nem pior. Efetivamente neste ano aprendi e continuo a aprender muito, mas essencialmente estou diferente no meu relacionamento comigo e com os outros. Sou hoje uma pessoa muito mais confiante e muito mais segura do que era há um ano.

Essa mudança só aconteceu porque alguém maravilhoso viu em mim o que eu ainda não tinha visto. Alguém tão bom que consegue ver o melhor dos outros, mas para além de ver, alguém com a iniciativa e com a capacidade de nos estimular a explorar e a dar esse melhor. Neste momento estou plenamente consciente do privilégio que tenho em ter como amiga alguém que oferece uma caneta e diz “escreve!”, que oferece um tela e diz “pinta!”, que oferece a página de um livro e diz “desenha!”, e nós escrevemos, pintamos, desenhamos porque é impossível resistir-lhe! A sua paixão pela vida, a sua criatividade, a sua capacidade de amar, de se dar, de trabalhar, de criar, de explorar, de mudar, de inovar, transborda e contagia-nos numa alegria e vontade de fazer, de construir…de nos reconstruirmos!

Para além da pessoa que de início me empurrou para o abismo do desconhecido e me fez voar, daqueles que ao longo deste ano leram os meus textos e me incentivaram a continuar, há uma outra pessoa fundamental neste processo. Alguém com o conhecimento e com a vontade de me ensinar mas também de aprender. Alguém com a frontalidade e a segurança de dizer “está mal, faz diferente!”. Alguém a quem a familiaridade não tolda o sentido de crítica nem diminui a imparcialidade. Alguém que corrige, que incentiva e que orienta para que o voo se mantenha, num suave planar ao sabor da doce brisa da imaginação.

É uma satisfação enorme chegar a este ponto, olhar para trás, e sentir que consegui! E quando o saldo é claramente positivo o passo seguinte é agradecer e continuar, porque a recompensa é o prazer imenso que a escrita me dá. Obrigada!

O relojoeiro




Era uma vez um relojoeiro. O relojoeiro passava todos os seus dias a cuidar dos relógios. Limpava, afinava, acertava e reparava os relógios, com muito cuidado e precisão. Eram muitos e variados os relógios que lhe ocupavam os dias, relógios de pulso, relógios de bolso, relógios de parede, relógios de pé alto… A todos dedicava a sua atenção e de todos conhecia com rigor os seus mecanismos. O relojoeiro era mestre no seu ofício, e de todo o país acorriam pessoas que confiavam nas suas hábeis mãos para que os seus estimados relógios voltassem a marcar o tempo, com o ritmo que é suposto o tempo ter. E ele abria, limpava, afinava, acertava e reparava os relógios, devolvendo o ritmo ao tempo. Por vezes era necessário reconstruir peças e com a segurança, minúcia e destreza das suas mãos recriava dentes de rodas, partes de tambores, âncoras, balanços e espirais. E devolvia o ritmo ao tempo.

De tanto viver entre relógios e peças de relógio, pois à sua volta abundavam caixinhas e compartimentos de madeira com milhares de minúsculos parafusos, rodas dentadas, espirais, tambores de corda, molas, âncoras, balanços, reguladores e toda a espécie de ponteiros e mostradores, um dia o relojoeiro deu por si transformado num relógio. Um lindo e valioso relógio de bolso. A sua caixa era preciosamente construída em ouro para que o tempo, ao avançar, não a corrompesse. A tampa, sobre o mostrador, continha uma complexa pintura representando toda a sua vida, para que o tempo, com o seu ritmo certo, a fosse decorando, conhecendo os seus lugares, as suas gentes, os seus amores e desamores.

O relojoeiro transformado em relógio foi carinhosamente levado para casa pela sua família. Já não arranjaria mais relógios, era agora ele o relógio a cuidar, a limpar, a afinar, a acertar e a reparar. E lá foi marcando o tempo, ao ritmo do seu tempo. E o tempo foi ficando mais lento, o seu ritmo irregular. A família com cuidado pegou nele e na medida do seu conhecimento e capacidade foi limpando, afinando, acertando e reparando para que o tempo não deixasse de avançar na cadência dos ponteiros. Passaram-se meses. À medida que os ponteiros iam girando, a um ritmo cada vez mais lento, o tempo ia decorando e absorvendo toda a pintura da tampa que, de tão esbatida estava, já mal se distinguiam os traços, as linhas ou as cores.

Um dia os ponteiros pararam de girar e a tampa sobre o mostrador deixou de representar qualquer pintura, apenas brilhava o ouro polido, sem mais cores, sem linhas, sem traços. A pintura da sua vida tinha sido completamente decorada e absorvida pelo tempo. E então, quando parecia que o relojoeiro transformado em relógio tinha parado naquele tempo, no seu tempo, a família percebeu que do seu mostrador libertavam-se as cores, as linhas e os traços que haviam formado a pintura da sua vida. E essas cores, essas linhas e esses traços transformaram-se em novo tempo, no tempo que faz girar os ponteiros da vida daqueles representados por essas mesmas cores, linhas e traços.

A despensa




Há alguns sonhos que na minha vida têm sido recorrentes. Não falo no sonho de fazer uma viagem ao Ártico, no sonho de esbarrar de cara com algum ator de Hollywood lindo de morrer, no sonho da equipa do meu filho ser campeã e da minha filha se tornar a atriz que deseja ou no sonho de eu ganhar o euromilhões. Estou a falar daquelas imagens e histórias projetadas pelo subconsciente enquanto dormimos. Entre o sonho em que quero correr e não consigo, o sonho em que estou a voar sobre a cidade, o sonho em que conduzo à maluca e a grande velocidade numa estrada estreita e cheia de curvas sem que nunca me despiste e o sonho em que encontro dinheiro a cada passo que dou, há o mais delicioso sonho que me visita de forma recorrente: sonho que tenho a despensa cheia, cheiinha, a abarrotar de chocolates. Pilhas e pilhas de tabletes de chocolates e de caixas de bombons, ocupando várias prateleiras! Curiosamente e por alguma razão, que por certo os psicanalistas conseguirão explicar, a despensa do meu sonho é sempre a despensa da casa dos meus pais e nunca a minha própria despensa.

Já houve uma altura em que a minha despensa se aproximou do sonho, com uma quantidade de chocolates e bombons bem acima do normal. Mas essa foi uma altura extraordinária, fruto de uma conjugação de maravilhosos fatores e vontade cósmica que nos proporcionou ter muitas tabletes e caixas de bombons, mas que, infelizmente, não durou muito tempo, tal a velocidade com que são consumidos, apesar das regras impostas. Por norma há sempre um ou dois chocolatinhos na minha despensa, um de leite para quem não gosta de chocolate negro e um negro, por eleição, e ficamos por aí, não convém abusar porque havendo, não ficam para reserva... Os chocolates são como o vinho verde, não são para guardar mas para consumir logo! Nas épocas especiais, que é como quem diz no Natal, na Páscoa, quando os meus pais nos visitam e quando recebemos a visita de amigos belgas, o stock de chocolates aumenta e os meus olhos brilham de satisfação ao olhar para as prateleiras da despensa, com tabletes de chocolate sobrepostas, mesmo à altura do meu olhar e para meu prazer.

Mas a minha despensa guarda muito mais do que chocolates em tempo de festa. A minha despensa é um pequeno mundo e submundo concentrados num espaço lotado mas devidamente organizado e hierarquizado por categorias de produtos. Na verdade é um espaço que deveria ter o triplo do tamanho e ser compartimentado para que não houvesse promiscuidade entre produtos alimentares, produtos de limpeza, ecopontos caseiros e bens de uso ocasional, mas o suplemento de área obrigatório para as habitações, previsto no regulamento de 1951, nunca se atualizou considerando as vivências e necessidades atuais.

São variedades e qualidades infindas do mesmo produto: arroz agulha para o simples arroz de acompanhamento, arroz carolino para o arroz de marisco, arroz de carne, etc, arroz vaporizado para o delicioso arroz de pato, esparguete, massa de cotevelinhos, espirais, macarronete riscado, macarrão, lasanha, feijão preto, feijão branco, feijão manteiga, feijão vermelho, baked beans with tomato sause porque às vezes gostamos de recordar os sabores de Inglaterra, folhas de louro colhidas diretamente da mãe natureza e secas naturalmente, frascos com orégãos, pimenta preta, pimenta vermelha, pimenta 5 bagas, caril, açafrão, gengibre, canela, piripiri, cravinho, cominho, salsa, ervas aromáticas, ervas de Provence, ervas aromáticas italianas, manjericão porque o que está no parapeito da janela nem sempre tem as folhas suficientemente grandes, cebola roxa, cebola branca, cebolinho…etc., numa lista interminável passando pelos chás, cafés, cereais e vinhos.

Como a minha despensa é uma despensa promíscua, pela qual ainda não passou a ASAE, também guarda os ecopontos caseiros – rolhas de cortiça, tampinhas de plástico, pilhas, cápsulas de café, embalagens vazias de medicamentos, papel, embalagens e vidros, para além dos produtos de limpeza, que são tão variados quantos os tipos de materiais existentes num lar: multisuperfícies, vidros, tijoleira, soalho, limpa-tudo, limpa chão, limpa fornos, especial casas de banho, lixívia, especial calcário, especial combate bolores, desinfetante, desengordurante, tira nódoas, abrilhantador, sal de máquina, pastilhas para a máquina, amaciador de roupa, detergente roupa de cor, detergente roupa normal, detergente roupa delicada... ufas, e claro, um bem muito importante ter sempre de reserva na despensa – papel higiénico!

Amor à camisola




A uma jornada do fim do campeonato nacional de futebol – Liga Portuguesa (Liga NOS), já está apurado o campeão e feita a festa. Mais um ano em que o “meu” clube não ganha, já são muitos anos, nem sei quantos, apesar dos meus queridos amigos de clubes rivais me estarem sempre a lembrar desse astronómico e inquantificável número de anos. Sinceramente isso não me preocupa muito, tenho pena, gostava que o “meu” clube fosse campeão, mas não é essa a razão que me move, não é essa a razão pela qual a minha preferência recai sobre esse clube. Nem sequer é pela cor que o representa, caso contrário este seria um dos últimos clubes que apoiaria.

O meu amor a esta camisola nasceu cedo, tão cedo como o conhecimento que tenho de mim. É um amor herdado e um amor que em pequenina alimentei ao vestir essa mesma camisola, mesmo que numa modalidade diferente. É um amor que ficou do tempo dos berlindes e das corridas com tampas de caricas, com as caras dos futebolistas, é um amor sereno, agora, sem paixão e sem loucura, mas um amor leal. Mas como um coração de mãe, com capacidade para amar mais do que um filho, também agora apoio outro clube, um clube do coração.

As voltas da vida fizeram-me deixar a minha cidade, a minha terra, a terra do “meu” clube, acabando por me instalar, aparentemente, de vez, numa pequena e simpática vila, agora a minha terra adotiva e para sempre a terra dos meus filhos, com direito a registo de naturalidade na conservatória. Também esta simpática vila tem um clube, que não é só de futebol, mas onde o meu filho joga futebol. Quando o meu filho, com seis anos, vestiu a camisola deste clube pela primeira vez, senti que desde aquele momento alimentava um amor que ficará para a vida toda, um amor ao clube da sua terra, um amor ao clube cuja camisola foi a primeira que vestiu. No entanto ele tem outro amor, tem outro clube do coração, adquirido por herança, e acredito que também vestirá outras camisolas, de outros clubes, que por eles dará o seu melhor e que a esses clubes dará o seu amor ou pelo menos a sua leal dedicação e empenho. Mas o amor ao seu primeiro e atual clube é um amor tão entranhado que me contagiou. É um amor vivido, suado e sofrido.

Mas este clube é apenas o clube de uma pequena vila do centro de Portugal e como tal, pensa muita gente, é um clube menor que não prestigia quem nele joga, nem contribui para a sua excelente formação desportiva e humana…não podiam estar mais errados! Esse sentimento é movido pela influência da proximidade geográfica de uma cidade que tem tudo para ser grande mas que é uma cidade pequenina. A sua pequenez reside no facto de estar tão cheia de si própria, que não consegue lidar com a evidência de estar a ser ultrapassada em qualidade e valor por aqueles que considera inferiores. Como em algumas situações não consegue impor de forma legítima a superioridade que considera ter, usa toda a sua influência e poder para que a sua dignidade não seja ferida, ignorando que são exatamente essas atitudes que ferem de morte a dignidade e o prestígio da instituição. E assim, impondo os seus clubes e os seus atletas, que são bons atletas, as cidades pequeninas vivem o sonho e a ilusão que são grandes.

É desta forma sofrida, lutando com coragem e dignidade, com muito trabalho e determinação, com paixão e união, que os pequenos clubes de pequenas terras se tornam grandes, porque cada derrota, cada injustiça, cada infortúnio são encarados de cabeça erguida, com a dignidade intacta, com a vontade de melhorar ainda mais forte, com a determinação de provar o valor, a qualidade, a paixão pelo jogo e a união existente, na equipa e no clube. E é por esta razão que o clube que lhe proporciona tantas alegrias, tanta aprendizagem e crescimento desportivo e de caráter, mas pelo qual também sofre algumas injustiças, sem que no entanto o demovam do seu empenho, será para sempre um clube no coração do meu filho …e no meu!

O Jogo




Os jogadores posicionam-se nos seus lugares, a bola encontra-se no centro geométrico do campo retangular. Tudo no campo é geometria: linhas, pontos, áreas. As linhas brancas no relvado mostram a perfeita simetria em que se joga, meio campo para uma equipa e outro meio campo para a equipa adversária. A simetria do campo, o mesmo número de jogadores de cada lado e até o posicionamento dos 3 árbitros, indicam que se trata de um jogo geometricamente equilibrado… e seria, se não fosse a esfera o elemento principal!

Soa o apito do árbitro dando início à partida e a bola passa de pé para pé, de pé para cabeça, de cabeça para cabeça, de cabeça para pé, chutada e cabeceada com precisão. As linhas da trajetória da bola são intersetadas com agilidade, criando novas linhas, retas, curvas, hipérboles, às vezes espirais. O campo é preenchido com desenhos abstratos e imaginários formados pelo trajeto da bola. Traços curtos, traços longos, criando ângulos, interseções, diagonais, paralelos. Linhas em todas as direções preenchendo completamente a área de jogo e muitas vezes saindo mesmo do perímetro do campo. O equilíbrio estático inicial perde-se no decorrer do jogo, a simetria dilui-se, a geometria transforma-se em arte.

Ouvem-se gritos eufóricos, soa o apito, foi golo! Desperto das minhas fantasias geométricas e festejo com o grupo o golo da nossa equipa. 1 a 0, estamos a ganhar, é matemático! Tão matemático como o discurso de um ex-treinador que dizia que o guarda-redes não faz a equipa ganhar jogos, que, na melhor das hipóteses, não sofre nenhum golo o que, matematicamente, não contribui para a vitória, uma vez que a vitória é definida, matemática e logicamente, pelo superior número de golos marcados relativamente à equipa adversária. Portanto, como não são, estatisticamente, contabilizadas as defesas que um guarda-redes faz, com exceção às grandes penalidades, apenas os golos sofridos, podemos concluir que este jogador é, matematicamente, um elemento negativo na equipa… bem, se o seu percurso for imaculado, com zero golos sofridos, poderá orgulhosamente considerar-se um elemento nulo na equipa! O referido argumento também sustentava a iluminada tese que defendia que um guarda-redes nunca poderia ser considerado o melhor jogador da equipa! A questão coloca-se agora: é o guarda-redes parte da equipa?! Infelizmente tenho assistido a algumas atitudes em que o guarda-redes é retirado, eliminado ou omitido do conjunto, como não fazendo parte do jogo, da estratégia, do grupo. Felizmente esta postura não é partilhada pelos atuais treinadores nem pela equipa que está a jogar.

Entretanto o jogo continua a decorrer, em grande velocidade e com empenho de ambas as equipas. A bola não pára, vai percorrendo o campo em variações de direção constantes, passando de jogador em jogador em avanços e recuos que por vezes, ó sacrilégio, são feitos estrategicamente para o guarda-redes que redistribui o jogo. Voltam ao ataque, a bola avança no meio campo adversário, é intersetada e muda de direção, é tempo de defender. No contra-ataque da equipa adversária o defesa, eficaz, interceta a bola, chutando-a para longe da sua área, para longe de perigo. Nova disputa de bola, com mudanças de direção constantes, fintas, passes e algumas faltas. Todos querem ganhar, todos querem marcar golo. O golo é o momento do jogo.

Apito de final de jogo. O golo marcado com o nulo sofrido deu-nos o saldo positivo de 1 golo, por isso ganhámos, é matemático! Mas futebol não é matemática, nem geometria, nem física, futebol é para além disso. Futebol é o espetáculo que aqueles miúdos nos proporcionam no decorrer dos 70 minutos, independentemente do resultado. Futebol é o passe certeiro, o corte oportuno, a finta que atordoa, o duelo ganho, a defesa magistral, o golo fantástico! É a sua paixão, a sua arte, o seu esforço, o respeito pelo adversário, os abraços encharcados em suor e chuva, de alegria ou de consolo, no fim do jogo.

Chá, café...ou um copo de vinho tinto

  Ouvi o silvo da chaleira ao lume, a água fervia, o chá ficaria pronto num instante… Mas não tenho por costume fazer chá, nem oferecer ch...