Chá, café...ou um copo de vinho tinto

 




Ouvi o silvo da chaleira ao lume, a água fervia, o chá ficaria pronto num instante…

Mas não tenho por costume fazer chá, nem oferecer chá às visitas, apesar de até acontecer ocasionalmente, o mais certo seria: Ploc! Com um movimento firme a rolha de cortiça é arrancada da garrafa libertando-se o agradável aroma do vinho tinto.

Contrariamente à minha vivência pessoal, reparei que nos livros que tenho lido é muito mais frequente as personagens oferecerem chá aos seus convidados. Talvez por ser mais sugestivamente sonoro o processo de preparar um chá. Além disso a palavra chaleira enche a boca, enche o espaço e as nossas memórias de infância. A recordação dos lanches em casa dos avós e das tardes de domingo em casa dos pais quando recebíamos visitas. Sim, há algo mágico e reconfortante em oferecer e preparar um chá, uma infusão quente e aromática. No entanto, estranhei quando, em vários livros, era essa a bebida que as personagens ofereciam às suas visitas, personagens jovens, dinâmicas, atuais. Não era um cafezinho, nem vinho, nem sequer um licor, e licor é uma palavra com uma sonoridade muito agradável…licor de framboesa, se tivesse, ofereceria sem pestanejar um licor de framboesa a quem me visitasse. Mas era chá que ofereciam. Punham a chaleira ao lume e continuava a narrativa enquanto a água atingia o ponto de ebulição. Após o silvo da chaleira que enchia todo o espaço e despertava o leitor e as personagens de novo para a ação, anunciando que a água estaria pronta, vertiam o líquido para uma chávena. Normalmente, depois de servido as personagens nem sequer tocam no chá, ficam ali, sentindo o calor nas mãos, com esperança que o fumegar liberte as conversas necessárias e não apenas o aroma da bebida. Talvez seja uma questão de compasso na narrativa: a oferta, o preparar, o esperar, o calor, o tempo, os sons e os cheiros, mas principalmente as palavras – chá, chaleira, chávena. Palavras intensas, com uma grande carga afetiva e histórica.

Por outro lado, nos écrans é muito frequente, talvez mais que na vida real, ver pessoas com um copo de vinho na mão. À tarde, ao fim do dia, até mesmo de manhã, sozinhas ou acompanhadas. O copo de vinho é elegante, é colorido, é apelativo e sensual e transmite segurança, tranquilidade, poder, confiança. Uma personagem sozinha, ele ou ela, com um copo de vinho na mão, é sempre alguém com classe, com o domínio da situação, por muito miserável e solitária que a sua “vida” seja. O mesmo não se pode dizer se o vinho for bebido diretamente pela garrafa, então é porque está a bater no fundo. Se eu abrisse uma garrafa de vinho tinto com a mesma frequência que se vê nos filmes alguém a beber vinho fora das refeições, iria triplicar o seu consumo. Não é que não aconteça, acontece com muito mais frequência do que as vezes que bebo chá.

Uma ótima opção será oferecer um café, um robusto e aromático café numa elegante chávena de vidro. Também tem o seu processo de preparação sonoramente apelativo, tem cor, tem um aroma forte e personalidade.



Foto de passagem do livro Águas passadas de João Tordo 

Doctor, doctor!

 


Isto aconteceu há muitos anos, tinha 21, quase 22 anos. Deitada na marquesa aguardava a cirurgia, sozinha na sala onde a mesma se iria realizar. Não era propriamente um bloco operatório como eu tinha imaginado, muito longe dos blocos operatórios dos filmes, parecia uma arrumação, uma sala cheia de tralha, com uma cortina à volta da marquesa que, fechada, me iria isolar do restante espaço. Os elétrodos já ligados registavam a minha frequência cardíaca e no silêncio da sala, o ritmo lento da minha bradicardia era o único som que se ouvia. Bip...................bip…………………..bip..…………..bip…..………… Estive assim bastante tempo, deitada, sozinha, embalada pela lentidão no meu ritmo cardíaco que, se não fosse o nervosismo, me teria feito adormecer.

A determinada altura entra um médico. Reconheci-o, já tinha estado com ele numa consulta. Novito, morenão, lindo de morrer… bem, de morrer não, de ressuscitar os mortos! Junto a um lavatório despiu-se da cintura para cima e, de costas para mim, pude apreciar o seu tronco moreno musculado enquanto lavava e desinfetava as mãos e braços. Apesar do bloqueio a pulsação disparou. O ritmo lento deu lugar a um acelerado bip, bip, bip, bip que ecoou por toda a sala. Bolas! Não sei o que o médico pensou, se se estava a divertir com a situação, se a fazer uma análise profissional, ou simplesmente abstraído no seu ritual de desinfeção, mas na altura achei que demorou muito tempo nesse processo, de costas, em tronco nu, a provocar-me. Muito provavelmente a única razão para a demora foi apenas o seu interesse profissional em perceber como é que aquele coração, o meu, apesar do bloqueio completo, respondia bem aos estímulos. Eu respirei fundo, contei até 10, contei de novo, tentei abstrair-me, relaxar, mas a pulsação não abrandou. Na altura ainda não era praticante de yoga e desconhecia a arte de controlar a respiração e deixar o corpo fluir. A máquina continuava a emitir uns bip - bips acelerados e não havia nada que eu fizesse que conseguisse diminuir o ritmo cardíaco, sentia-me exposta, transparente.

Resignada, devo ter fechado os olhos e aguardado que aquilo acabasse, ou melhor, que começasse. A espera para a cirurgia já me estava a deixar enervada e hoje desconfio que os bip-bips acelerados eram mais consequência da ansiedade e nervos que da presença do médico sexy seminu.

Enfim chegou o resto da equipa e começou a cirurgia. Apenas com anestesia local pude ouvir e sentir tudo com exceção da incisão e sutura. Começaram por sintonizar o rádio numa estação que transmitia música clássica e lembro-me que ouvi durante quase toda a operação o Bolero de Ravel. Sendo a minha primeira cirurgia achei alguma piada ao facto de poder ouvir as conversas que os médicos têm entre si enquanto operam. Entre instruções e comentários técnicos referentes à operação, falam de trivialidades, de música, dos filhos…deixei de achar piada quando um deles contou que tinha sido chamado para tirar um pace-maker do corpo de um morto. Que raio de conversa para se ter em frente a uma paciente, pensei. Deixei de prestar atenção às conversas e, concentrando a audição no Bolero, foquei os restantes sentidos no meu corpo. Estando a ser operada abaixo da clavícula direita, tinham espalhado os instrumentos necessários por cima do meu corpo. Conforme iam precisando de um determinado instrumento, cuja forma e função ignoro, as suas mãos pegavam nele, fazendo uma espécie de cócegas na parte do corpo sobre o qual o instrumento estava… sorte teria tido se todas as sensações fossem de cócegas. As dores insuportáveis e o sentimento de impotência ao sentir o domínio da máquina sobre o corpo fizeram-me pensar quão frágil pode ser a nossa existência e, mesmo com toda a força, coragem e sensação de imortalidade próprios da juventude, não deixei de experimentar um sentimento que poderá ter mudado a minha forma de estar na vida.

O que também mudou nos meses seguintes foi o entusiasmo com que passei a cantarolar as músicas Bad case Of Loving You (Doctor, Doctor) de Robert Palmer e Doctor! Doctor! Dos Thompson Twins…coisas de miúda a quem foi dada uma segunda oportunidade de apreciar a vida.

A Torre!


 


Esta noite tive um sonho. Sonhei com uma torre enorme e monstruosa de 7 andares. Eu sei que a um edifício de 7 andares, por norma, não se chama torre, mas no mundo distorcido onde me encontrava no sonho tudo era desproporcionado e fora de escala. No sonho, o edifício de 7 andares, doravante apenas denominado A Torre, subia para além das nuvens e ninguém conseguia ver o seu topo. Perante o desconhecido e a suposição que A Torre elevava para uma dimensão alienígena quem quer que a habitasse, os habitantes da cidade temiam-na e odiavam-na, sentiam-se como Liliputianos perante Guliver. A Torre até era bonita, elegante e apelativa fazendo com que alguns corajosos e mais dados a aventuras a desejassem conhecer melhor e até habitar, mas por vezes transfigurava-se e a sua sombra sobre a cidade obscurecia o espírito dos Liliputezinhos que, aterrorizados, juravam que a tinham visto engolir jardins, casas, carros e até pessoas.

Não sei bem por que razão, mas fui eu a eleita e chamada a tentar resolver o problema da cidade, o problema da Torre. Com muito boa vontade e cheia de esperança muni-me das armas e utensílios que achei apropriados a combater o flagelo da Torre.  Quando me aproximei a primeira vez da Torre, achei-a inofensiva, apesar da altura descomunal de 7 pisos – relembro que naquele mundo tudo era distorcido e desproporcionado. Analisei cuidadosamente todos os aspetos físicos e psíquicos inerentes à existência da Torre uma vez que se desconhecia quem e como a teria construído. Sobre este tema também recaíam muitas polémicas e contradições. Havia quem dissesse que A Torre tinha sido construída por elementos ocultos da sociedade que, sob a falsa intenção de criar habitações, pretendiam destruir a cidade remetendo-a à sombra eterna. Havia quem dissesse que, como ser inteligente e auto mutante, a própria Torre se tinha construído no intuito de ser o elemento dominante e dominador da até então pacata cidade. Havia ainda quem ousasse dizer que não via qualquer mal na sua existência, sentindo-se perfeitamente capaz de coexistir com tão transcendente elemento arquitetónico.

 Após uma primeira análise não encontrei nada de estranho na Torre, tirando o facto de ter 7 pisos e alcançar o céu e isso sim, era de facto estranho. A questão não parava de me inquietar o espírito e entrei num delírio tortuoso em que a imagem da torre disforme e sem fim me tinha capturado e, como numa espiral, eu percorria-a vezes sem conta, nunca atingindo o seu final nem conseguindo voltar ao início. Passei dias e dias, no sonho, neste delírio, presa na Torre, sem conseguir, no entanto, descobrir qual a razão do seu problema e como o solucionar. Perante a minha ineficácia o povo voltou-se também contra mim, alegando que era cúmplice da Torre, eventualmente até a sua criadora e que também eu queria o fim da cidade. Com o início de alguns tumultos, a cidade aparecia, no sonho, cada vez mais distorcida e desproporcionada. As plantas eram minúsculas, as pessoas também, os automóveis transfiguraram-se e apareciam gigantes, obstruindo as estradas, ocupando os passeios, logradouros, jardins, criando o caos. Perante a confusão que se gerava na cidade, a Torre ria, pois que nos sonhos tudo é possível, e ria desalmadamente fazendo tremer a terra que se rasgava abrindo fissuras enormes das quais nasciam mais Torres. Torres e Torres e Torres enormes, disformes e desproporcionadas…Ahhhhh!

Acordei, felizmente, mas a sensação de estar a ser perseguida por uma torre não me abandonou.

Maresia


 

Hoje apetece-me escrever. Tenho uma vontade enorme de falar do cheiro a maresia, a bolos e a pão acabado de cozer. Cheiro a manhãs frescas de verão, quando a neblina e o mar se fundem, deixando a vila mergulhada no silencio húmido de um lento acordar tardio.


Manhãs em que, sem pressa de ir para a praia, percorro descontraidamente as ruas da vila, ausente de veraneantes. A neblina instalada cria uma dimensão diferentes aos dias, a dimensão do tempo parado, possibilitando-me caminhar sozinha, isolada, absorvendo os odores intensificados a mar, a bolos e a pão acabado de cozer. Permito-me passear descontraidamente, sem horário. O branco e azul das construções é absorvido pelo filtro cinza claro da neblina que preenche os espaços, tornando suaves e indefinidas as linhas dos seus contornos. Caminho como num sonho, num mundo semirreal, suave e indefinido na sua dimensão física, mas intenso em tranquilidade e em perceções olfativas.

O aroma a bolos e a pão acabado de cozer é irresistível. Saboreando o momento de tranquilidade entro numa padaria. O aroma intensifica-se, há pão quente, o que me deixa de água na boca. Compro pão para o dia, o famoso pão da zona, denso e saboroso, e broa para acompanhar as sardinhas ao almoço. Com o saco de pão na mão a exalar um cheirinho delicioso percorro as ruas, que continuam ainda desertas, em direção à praça onde há uma pastelaria que recordo dos tempos de criança. Já nessa altura um dos melhores momentos do dia era aquele em que, acompanhando o café que os nossos pais bebiam, eu e os meus irmãos comíamos um bolo na pastelaria da praça. Com o aroma a bolos acabados de fazer seduzindo os transeuntes, não resisto e entro na pastelaria. O sol continua encoberto e de momento a melhor forma de preencher a manhã é deixar-me levar pelo prazer de apreciar um bom café e um bolo delicioso na pastelaria deserta.

Estas memórias tão doces, esta vontade de reviver estes momentos, surgem ao caminhar pelas ruas desertas numa manhã qualquer de uma primavera atípica. Não cheira a bolos nem a pão acabado de cozer, as pastelarias estão fechadas. As ruas estão desertas, mas o sol brilha e a sua luz inunda a cidade, intensificando-lhe as cores. Tento repetir a sensação de bem-estar por caminhar numa rua deserta, tento apreciar a solidão e a tranquilidade da ausência de transeuntes de passos apressados, de conversas cruzadas e de trânsito à hora de ponta. Tento, mas não consigo, a nostalgia apodera-se de mim, a lembrança de momentos agradáveis do passado contrasta de forma absurda com a surreal situação do presente. As ruas completamente desertas já não são agradáveis, são deprimentes e assustadoras, a solidão é triste e angustiante e falta o cheiro a bolos e a pão acabados de cozer. Mas o sol brilha e o seu brilho é intenso, purificador e ao sentir o seu calor acariciar-me a pele sinto a esperança de num futuro próximo voltar a sentir o cheiro a maresia, a bolos e a pão acabado de cozer.

Máquina Infernal

 



Tive ontem a confirmação de algo de que já andava desconfiada há algum tempo. Basta utilizar uma vez para perceber que aquela máquina tem na sua essência algo que não é inocente. Na sua versão mais moderna ela apresenta-se apelativa, cheia de opções de funcionalidade, com luzes e bonitos elementos cromados polidos e garante ser um veículo seguro e eficaz para que o inocente utilizador atinja os seus mais elevados objetivos de realização pessoal. Ela insinua-se no meio das outras máquinas, sempre disponível, com os seus braços abertos para nos receber. Chama por nós prometendo ser a mais fácil, a menos dolorosa, mas a mais eficiente. Admito que foram várias as vezes que não consegui resistir aos seus encantos, respondendo ao seu chamamento de promessas irresistíveis. Fui na sua cantiga de facilidades e garantias…uma desilusão, um autêntico canto de sereia. O que prometia ser indolor converte-se num sofrimento insuportável, o corpo doi, o coração dispara para além do seguro, a vontade de desistir atormenta-me, gera-se uma luta interna e o corpo já não sabe se responda à ordem de parar se responda à ordem de continuar. Nem sei bem quem terá dado esta última ordem dentro de mim, mas as pernas continuam em movimento, o que significa que foi esta a ordem acatada. Talvez tenha sido a esperança de acreditar na sua promessa de eficácia. É claro que se comprovou que os objetivos não foram atingidos…nem poderiam, em “apenas” meia hora!

Quando entro no ginásio e olho para aquelas máquinas percebo logo que são máquinas de tortura camufladas de realizadoras de sonhos. Elas brilham e sorriem para nós como se fossem as nossas melhores amigas, mas num instante convertem-se em demónios sem qualquer compaixão pelo sofrimento alheio. É óbvio que só uma mente perversa poderia idealizar um tal mecanismo. Máquinas que aos poucos, sem que consigamos dar conta, nos vão consumindo as carnes, alimentando-se do nosso corpo, devorando-nos lentamente…muito lentamente para que não nos consigamos aperceber atempadamente da transformação que nos estão a provocar.

Ontem na rádio ouvi que a passadeira, tão popular nos ginásios e nas casas de muitos inocentes, foi inventada como instrumento de tortura e de castigo de prisioneiros que eram obrigados a caminhar nelas durante muitas horas sem poderem parar. Tudo certo, uma máquina de tortura e castigo nas prisões, que continua a ser máquina de tortura e castigo nos ginásios, só mudam as instalações e os elementos que de um lado e de outro a usam. Substituímos os prisoneiros por pessoas livres que voluntariamente se prestam pagar para utilizar o maléfico mecanismo e os guardas prisionais por simpáticos instrutores que nos convidam a usufruir de tão útil mecanismo, sem que precisem de outro meio de persuasão que não seja o seu sorriso.

Claro que a bem da verdade se comprova que a origem e utilização da passadeira não foi tão linear como a expressa no parágrafo anterior, mas é a verdade mais consonante com os sentimentos que nutro por essa máquina infernal.


Fotografia: Mauro Paula - Adhoc Gym

Querido diário...




7 horas, o despertador toca. A sério? Ainda não dormi tudo e o despertador já está a tocar? Há 16 anos, a idade do meu filho mais velho, que tenho uma montanha de horas de sono em débito. Há 16 anos que sofro de sono crónico. Levanto-me e, a cambalear, dirijo-me à cozinha para tomar o comprimido para a Tiróide, o primeiro do dia. Isto já só lá vai com comprimidos. Apesar de me sentir jovem, saudável e poderosa, as obrigatórias bolinhas e disquinhos brancos insistem em lembrar-me a minha idade e condição médica. Desvalorizo, não se pode dar muita confiança às maleitas. Tomo o comprimido e, apesar de já ter celebrado o 50.º, sigo a minha vida como se ainda tivesse 20 anos… com a gigantesca diferença que, com 20 anos, não tinha de me levantar às 7 para ir trabalhar, nem tinha filhos. Trato de mim, oriento os miúdos, faço uma ou outra coisita em casa e pelas 8 saio para o trabalho.

Passo o dia todo a trabalhar, como aliás a grande maioria dos humanos da minha idade. Não tem muito interesse neste momento abordar as situações com que me deparo no trabalho, já foram alvo de inspiração para outros textos. Saio do trabalho e faço umas compras para casa. Chego a casa, faço mais umas coisitas à pressa e tenho logo de sair para levar, ou buscar, os miúdos às atividades. “Despachados” os miúdos e a casa orientada (muitas vezes este orientada significa que alguém lá fica a tratar do que é preciso, sempre sob minha orientação, claro), sigo para o momento em que verdadeiramente me dedico a mim.

Estaciono no piso – 1 e apanho o elevador para o piso 2. São só 3 pisos, poderia muito bem ir pelas escadas, eu vou sempre pelas escadas: no serviço, quando vou a uma consulta no hospital, mesmo tendo de subir 6 pisos… mas quando vou ao ginásio subo ao piso 2 pelo elevador, não me perguntem porquê, mas deve ser psicológico – aquele momentinho de preguiça antes de começar a dar cabo do corpo.

Estou toda dorida, mas não deixo de ir malhar. Ao fim de 2 anos a frequentar o ginásio quase diariamente, era suposto que todos os músculos já estivessem perfeitamente familiarizados com as torturas aplicadas. É o que faz não ter estudado anatomia, deixei que alguns músculos, que nunca imaginei existissem, se mantivessem adormecidos, escondidos e pouco ou nada utilizados. Mas os queridos instrutores que devem ter passado horas e horas a decorar os nomes, a localização e a maneira de acordar, utilizar e massacrar todos os mais de 600 músculos do corpo humano, têm um especial prazer em colocar na prática todos esses fantásticos conhecimentos adquiridos, utilizando-nos como cobaias. É sempre extraordinariamente surpreendente ao fim de cada aula conseguir descobrir mais um músculo desconhecido e tomar consciência da sua existência através da dor. Olá corpo, olá cada um dos seiscentos e tal músculos, bem-vindos à minha vida!

Não sou a única a sentir o mesmo, somos mesmo muitas. Mulheres que passam a vida numa correria para conseguirem um tempinho para ir ao ginásio…correr! Quem diz correr diz outra ação qualquer. Desde que o resultado seja massacrar o corpo, serve. Estamos naquela idade em que nos sentimos capazes de tudo, não há barreiras que não consigamos ultrapassar, afinal estamos no mercado do trabalho há mais de 20 anos e toda a gente sabe que não há nada mais duro que trabalhar, somos mães…bem, na realidade por vezes ser mãe é bem mais duro que trabalhar e ainda conseguimos sobreviver ao convívio diário com adolescentes! Terrível! E como nos sentimos capazes de tudo e mais qualquer coisa que os queridos instrutores resolvam inventar, mesmo doridas vamos ao ginásio e esforçamo-nos sempre mais. Muitas vezes esforçamo-nos até de mais. É um círculo sem fim: dor sobre dor sobre dor… A culpa, claro, é dos instrutores que se esquecem que poderíamos ser mães deles, mães jovens, evidentemente, mas biologicamente possível, e dizem para nos desafiarmos e nós, ingénuas, vamos na cantiga. Os resultados são evidentes: sentimo-nos cada vez mais poderosas, doridas, mas poderosas!

Satisfeita, depois de um banho regenerador, volto para casa, para junto da família. Finalmente o descanso merecido…ou não!

5 pães de água




Os 4 empregados da pastelaria faziam apostas e disputavam entre eles o direito a atender aquela cliente. Vinha todos os dias da semana de trabalho, à mesma hora, e pedia sempre a mesma coisa. Não se tratava de uma cliente jovem e deslumbrante, nem de uma cliente cujo corpo e roupas fizessem parar o trânsito. Quando ela entrava na pastelaria, à procura de uma mesa disponível, o barulho das conversas e do manuseamento de loiça continuava no mesmo tom e ninguém desviava o olhar do seu galão e pastel para a observar. Apesar de ser discreta, a educação e o sorriso com que brindava o empregado que a atendia eram um prazer acrescido ao seu trabalho diário na pastelaria do centro da cidade.

Apresentava ao empregado o saquito de pano, feito por um dos filhos no ATL na escola primária, e pedia: 5 pães de água clarinhos para levar e mais 1 pão de água com manteiga para comer agora. Era sempre o mesmo, dia após dia. Tirava da mochila um livro e começava a ler.

E era precisamente no livro que residia a curiosidade dos empregados da pastelaria. Enquanto a atendiam e serviam, espreitavam o livro, procurando saber o título e se a leitura ia avançada. Todos queriam ser os primeiros a conhecer e a divulgar aos colegas um novo livro. Era como se fosse um jogo. Já muitos livros tinham sido lidos naquela pastelaria por aquela cliente, uns mais volumosos, outros fininhos, alguns de bolso, outros de capa dura, de autores estrangeiros, mas sobretudo muitos de autores portugueses e isso tinha atraído a atenção e curiosidade dos empregados. Até já conheciam alguns escritores recorrentes. Volta e meia lá aparecia mais um livro do autor X, ou do Y, muitas vezes do autor Z! Que livro estaria agora a ler?! Já teria terminado o anterior e começado a ler um livro novo?!

Esta espécie de jogo, tacitamente assumida e aceite por todos os intervenientes, tinha como consequência que às segundas-feiras, mesmo com a pastelaria completamente cheia de clientes, aquela cliente era atendida em tempo recorde. Independentemente do estado de avanço na leitura detetado na sexta-feira, o fim de semana poderia ter sido muito produtivo e na segunda-feira já estar a ler um novo livro, que queriam descobrir qual era. Por outro lado, nos dias após ser constatado o início da leitura de um novo livro e enquanto o volume das folhas à direita fosse superior ao volume das folhas à esquerda enquanto a cliente o lia, a pressa para a atender já não era notória, apesar de ser sempre atenciosamente e muito bem servida.

Para além da simpatia, do sorriso, da certeza do pedido, do saco de pano para o pão e da incógnita do livro, os 4 empregados da pastelaria gostavam de tentar perceber pelas expressões da cliente o tipo de livro que lia. Enquanto segurava o pão com uma mão, com cuidado para que a manteiga derretida no pão acabado de sair do forno não pingasse, com a outra mão segurava o livro, lia e no seu rosto iam aparecendo expressões reveladoras. Por vezes divertida, quase gargalhava em voz alta, noutras situações esbugalhava os olhos, ou franzia a testa, torcia o nariz e revirava os olhos. Já tinham reparado que naturalmente sorria enquanto lia, sinal que o livro lhe estava a dar prazer, mas também já lhe tinham vislumbrado os olhos brilhantes, com lágrimas...

Terminava de comer o pão e continuava a ler, abstraindo-se dos barulhos e movimentos em sua volta. Era só ela e a história do livro. Chegada a hora de se ir embora fechava o livro e suspirava, voltando o mundo real. Os empregados viam-na sair, levando o saquito de pano com os 5 pães de água e também eles voltavam ao mundo real. No ar ficava o aroma a pão acabado de cozer e a expectativa de um novo livro no dia seguinte.

Um rapazito especial




O rapazito franzino, de olhar bondoso e esperto, caminhava preguiçosamente a caminho de casa, depois de uma manhã a tentar prestar atenção ao mestre que lecionava as aulas na escola primária da vila. A matéria interessava-lhe, mas também lhe interessava o que se passava na rua e tentava vislumbrar através da grande janela da sala de aula, por isso era frequentemente chamado à atenção pelo professor. Além disso ao fim da manhã já era muito difícil permanecer concentrado, a fome apertava e já só conseguia pensar no recado da mãe: depois da escola passa na padaria e traz o pão para tu e os teus irmãos comerem hoje.

Nos pés trazia uns sapatos velhos e apertados, já usados pelo irmão mais velho e que o pai tinha arranjado. Era sortudo por não ter de andar descalço como muitos dos companheiros da sua aldeia. Levava a sacola da escola a tiracolo e na mão o saquito com o pão que a padeira lhe tinha dado. A parte final do percurso de cerca de 2 km entre a escola e casa era a mais difícil, uma subida acentuada. Como a fome apertava e o caminho era longo foi tirando distraidamente umas migalhitas do pão. Sempre dava para enganar o estômago até às couves do almoço. Uma migalha agora, mais uns passos e outra migalha, a curva do caminho e outra migalha, o atalho pelo carreiro a subir e mais umas quantas migalhas, até que finalmente, cansado, mas saciado, chegou a casa.

A mãe e os irmãos mais novos já o esperavam com o caldo de couves e batatas na mesa pronto a ser servido. Contou entusiasmado a leitura que tinha feito na aula, gostava muito de ler, mas omitiu a parte da repreensão do professor. A mãe, paciente, ouviu-o com atenção e amor, sabia o quanto era importante para aquele filho aprender, mas esperava que lhe entregasse o pão e assim calar os estômagos dos pequenitos. Ao entregar à mãe o saco do pão estranhou a sua leveza. Logo que a mãe abriu o saco depararam-se apenas com um pequeno pedaço de pão. Esbugalharam ambos os olhos olhando para aquele resto de pão. Ele assustado e com um grande sentimento de culpa porque se apercebeu que ao longo do caminho tinha comido o pão quase todo, o pão que era também para os irmãos. Ela porque mais uma vez não teria pão para saciar toda a família. Ela também porque olhava para aquele filho franzino que se tinha levantado ainda de noite para ir a pé para a escola, com pouco mais que uma água deslavada no estômago, sentia a sua fome e percebia a inocência do seu ato e a culpa que agora lhe pesava. Não o iria repreender, teria apenas de, mais uma vez, multiplicar as migalhas restantes e dividi-las pelos filhos. Mais um dia em que ela e o marido não comeriam pão, mas naquela mesa não faltaria alegria, não faltariam conversas nem faltaria amor.

À noite, depois de cumpridas todas as suas tarefas, sentou-se ao borralho junto à mãe. Aproveitava o calor e a luz do fogo para ler o livrito que tinha trazido da escola. A divisão, de paredes pretas pintadas pelo fumo, exercia nele um certo fascínio. Gostava de, nas noites frias e escuras de inverno, sentir o calor e a luz do fogo, sentir o cheiro da madeira queimada e da sopa a ser feita na panela de ferro. Gostava de olhar para cima e ver o fumo a escoar-se pelas telhas de barro. Mas gostava sobretudo daqueles momentos a sós com a sua mãe, quando os irmãos mais velhos iam deitar os mais novos e o pai tratava dos seus assuntos na sala ao lado. Sabia que os tais assuntos do pai, quando a vida o permitia, era apenas o prazer de ler um livro em sossego, à luz da lamparina. Partilhava com o pai o gosto pela leitura e sentia nisso um grande orgulho.

A sua vida era simples, mas feliz, o fogo tinha-lhe aquecido o coração e a companhia e perdão da mãe reconfortou-lhe a alma. Sentia que não precisava de muito mais, tinha a possibilidade de estudar e tinha uma casa cheia de gente e de amor. A guerra na Europa já tinha terminado por isso tinha confiança que tudo iria também melhorar em termos económicos.

Nessa noite, já deitado, disse as suas orações em silêncio, porque Deus não precisava de som para o ouvir. Profundamente arrependido, pediu perdão por ter comido o pão que era para todos. Prometeu que se recordaria para sempre desse incidente e que tal não voltaria a acontecer. Pediu pela mãe, pelo pai e pelos irmãos, que tivessem saúde e prosperassem. Pediu também a Deus que lhe permitisse nunca mais ter fome…

Rio Dos Mouros




O rapaz saltitava sobre as pedras redondas de rocha calcária cobertas de musgo verde, subindo o leito do rio.  Naquela estação, a mais quente do ano, o rio corria subterrâneo, por isso Marco gostava de explorar a profunda garganta do rio, subindo e descendo pelo seu leito, saltando de pedra em pedra. Alguns raios de sol conseguiam atravessar a densa vegetação que, atravessando as margens do estreito canhão, formavam um túnel sobre o rio, iluminando o caminho. Era uma paisagem única, sombria, mas muito bonita que estimulava a sua imaginação e apetência para a aventura. Por vezes, saía do leito do rio e subia a escarpa agarrando-se a troncos e a rochas salientes.

Tinha sido numa destas incursões pela encosta que havia descoberto as estranhas grutas. Na altura guardou segredo sobre o achado. Primeiro porque a descoberta o tinha deixado nervoso e receoso ao ponto de não conseguir dormir, com medo de ter descoberto o esconderijo de algum ser monstruoso que certamente o perseguiria e mataria para que não revelasse o seu segredo. Depois, verificando que não havia indícios de estar efetivamente em perigo, porque achava que ninguém o levaria a sério nem acreditaria na sua descoberta.

Finalmente, após algumas semanas, ganhou coragem e voltou às grutas. Entrou a medo. Deu apenas dois passos para o seu interior, os olhos tinham que se adaptar à escuridão para conseguir distinguir as formas e perceber se seria seguro prosseguir. Numa mão levava um pau, um tronco seco que tinha apanhado no caminho, e na outra uma pedra. Sabia que em situação de perigo e confronto com algum ser monstruoso essas armas não serviram de muito, mas davam-lhe a ilusão que, na melhor das hipóteses, poderiam servir para intimidar o opositor e, em caso de arremesso, atrasar a perseguição e adiantar-se na fuga. Por essa mesma razão, uns dias antes tinha feito uma incursão ao local e analisado a melhor estratégia de aproximação e de fuga, estudando caminhos e possíveis esconderijos. Quando os olhos conseguiram ver todo o interior da gruta permitindo-o confirmar que se encontrava só, respirou fundo. As pernas e braços ainda tremiam, mas ganhou coragem e explorou o interior, verificando a existência de várias cavidades. Espalhados no chão encontrou objetos estranhos, adagas, punhais e alguns ossos. Assustou-se com a descoberta, considerando-a mais uma prova que a gruta seria habitada por um ser terrível. Pegou num punhal e num osso, convencido que seria humano, e fugiu dali rapidamente. Correu, descendo o desfiladeiro até ao rio, tropeçando em troncos e pedras. Quando exausto parou junto à margem, contemplou os tesouros que tinha extraído à gruta. O punhal era muito velho e rudimentar e consistia apenas na lâmina com um pequeno cabo também de ferro. O osso era mais pequeno do que lhe tinha parecido inicialmente, talvez não fosse humano, afinal. Apesar de não ter conhecimentos de anatomia, reconhecia o formato e dimensão do osso; costumava fazer figurinhas de brincar esculpindo os ossos que sobravam das refeições mais faustosas a que tinham direito quando o seu pai ia à caça.

Recomposto do susto e do cansaço, mas ainda excitado com a descoberta, Marco saltitou de pedra em pedra subindo o leito do rio até ao local onde o caminho de acesso à povoação cruza o rio, numa ponte de pedra. Trepou a margem irregular e chegou ao caminho que sobe íngreme até à povoação. Sem vegetação a protegê-lo dos raios escaldantes do sol na subida, chegou a casa ofegante. Chamou pelo pai, ansioso por lhe mostrar a sua descoberta. Apesar de ainda ser um rapazito, tinha a esperança que a prova da sua coragem e a apresentação do achado lhe abrisse a porta do mundo dos homens adultos. Ansiava também que a jovem Valéria reparasse nele. Com 15 anos e grandes olhos verdes, Valéria tinha já muitos pretendentes, mas Marco tinha a certeza que, apesar da diferença de idades, ela não iria ficar indiferente à sua bravura. Não tendo obtido resposta, avançou pelos aposentos até ao quarto onde esperava encontrar o pai a descansar.

O que encontrou assim que entrou no quarto foi algo que o marcou para toda a vida, algo que o obrigou a agir rapidamente, passando nesse mesmo instante de menino a homem. Aconteceu tudo tão repentinamente que a sequência dos acontecimentos ainda pairava como uma neblina difusa na sua mente quando, uns dias mais tarde, foi orgulhosamente recebido pelo pai na sala onde o esperavam os mais ilustres da cidade. O reconhecimento público do seu ato heróico foi coroado com o olhar, sorriso e insinuação de Valéria.

Segundo a narrativa do próprio pai, perante a assembleia de ilustres, o gigante que saqueava a casa, ao ser interpelado, não hesitara em usar a vantagem física para anular qualquer hipótese de reconhecimento e condenação futura, rodeando e apertando o seu pescoço com ambas as mãos. Já quase sufocava quando Marco entrou na divisão. De acordo com o relato, o grito que Marco deu apenas provocou um riso enlouquecido no gigante, o que aumentou a sua aflição, mas surpreendentemente, o riso transformou-se num grito lancinante de dor quando o punhal foi cravado uma e outra vez na carne do gigante, que acabou por libertar o pai, salvando-o. Graças à bravura do filho que, enlouquecido ao ver o gigante estrangulando o pai, correu para eles com o punhal na mão e, com uma força que desconhecia possuir, apunhalou o gigante vezes sem conta até este cair inerte no chão banhado de sangue, salvou-se e salvou as moedas de prata que com tanto sacrifício tinha conseguido juntar ao longo da vida.

A origem do punhal tornou-se irrelevante perante o facto de ter salvado a vida do pai e matado o gigante, aliás, ninguém se lembrou de perguntar porque tinha Marco um punhal na mão quando entrou em casa e onde o tinha encontrado. Essa descoberta ficaria para outra altura, neste momento queria aproveitar ao máximo a importância recém-adquirida e o seu novo estatuto por ter travado o gigante e por salvar o seu pai da morte certa.

De mãos dadas, Marco e Valéria, saltitam de pedra em pedra, subindo o leito do rio…

Finalmente sexta-feira!




Finalmente sexta-feira! Após o regrado almoço na cantina do serviço, vou com uns colegas beber café a uma pastelaria próxima. Um café para cada um e bretzels de chocolate divididos em 2 para partilharmos. Se formos em número par a divisão é pacífica, mas se formos 3 ou 5 há uma metade a mais. Acabo por ser sempre eu a comer a metade sobrante. Come tu, dizem os meus colegas, tu podes, vais ao ginásio! E com muito sacrifício, mas sem culpa, lá acabo por comer mais uma metade do delicioso bolo, saboreando cada dentada, sentindo o crocante da massa alternar com o irresistível chocolate. Sim, sem culpa, porque é sexta-feira e vou ao ginásio. No sábado de manhã vou novamente. Já fui na segunda, na terça e na quarta.

Finalmente sexta-feira, o dia da aula de fight no ginásio. Que aula fantástica, que energia, que power! Nesta aula liberto tanta energia que toda a carga negativa acumulada durante a semana desaparece. Por outro lado, na mesma aula recarrego-me do dobro da energia libertada e sinto-me poderosa, quase ao ponto de desejar ser interpelada por bandidos para lhes aplicar implacavelmente os pontapés, murros, ganchos e joelhadas praticadas.
Sim, a aula de fight irá certamente derreter as indesejadas calorias extra do muito desejado bretzel

Mas mais do que a necessidade de queimar calorias, de baixar níveis de colesterol e de triglicéridos, de controlar a tensão arterial, de diminuir o peso e o volume corporal, de aumentar a força, a resistência e a flexibilidade, as idas ao ginásio funcionam como a conquista de momentos de bem-estar. Bem-estar social, mental e físico, mesmo que por vezes os exigentes instrutores consigam fazer do ginásio um autêntico parque lúdico de tortura. E não são precisos muitos instrumentos para que uma aula ou treino ganhe requintes de malvadez, basta utilizar a diabólica air bike, fazer burpees ou uns determinados agachamentos que rebentam completamente com as nossas pernas, substituindo os músculos por rochedos estáticos que deixam de ter capacidade de contrair e de relaxar…

E com nomes indecifráveis atraem-nos para as exigentes aulas do ginásio que, à semelhança da música dos GNR, também são pós-modernas: CX, TRX, RPM, Step, HIIT, GAP, kick, 3B, zumba, jump e yoga, entre muitas outras. Esqueçam a ginástica aeróbica dos anos 80. Esqueçam a ginástica de manutenção. No ginásio é tudo para matar. Esqueçam também o jogging, para correr só em modo running.

E é por isso mesmo que eu gosto do ginásio, são exigentes, puxam por nós, levam-nos a superarmo-nos sempre mais e mais. Independentemente da idade e estrutura física, para os instrutores somos todos iguais, somos todos igualmente capazes. E é tão bom com, quase, 50 anos e uns quilitos a mais sentir-me igual a uma elegante jovem de 20 anos! Mas no ginásio há também lugar para o convívio e reina o bom ambiente, não só nas aulas, onde apesar do esforço e desgaste físico encontramos energia para rir e brincar, mas também no balneário, nos corredores, junto da receção e na sala de musculação, pois apesar de eu não gostar de puxar ferro, admito que o espaço fica bem mais interessante com aquela parafernália de máquinas, pesos…e seus utilizadores.

Finalmente sexta-feira e depois da ida ao ginásio provavelmente vou jantar fora, mas terei de controlar o entusiasmo e satisfação que me domina depois do fight, pois o meu filho já reclama que o assunto das conversas recai sempre sobre as aulas, o ambiente e os colegas do ginásio, o invejoso. Vou tomar nota para também não conversarmos sobre futebol…

Texto criado para o Adhoc Gym - Condeixa

A herança maior




Acabaram as cerimónias fúnebres, agora podemos voltar atrás?! Podemos rebobinar a fita da vida e corrigir?! Houve um erro de casting, um erro no guião, um erro, definitivamente um erro. Não acredito que aconteceu, não poderia ter acontecido, é impensável e incompreensível a tua morte, pai.

Naqueles dias em que o teu corpo repousava na igreja ainda te tinha. Olhava para ti sereno, com as 9 rosas no teu colo, envoltas pelos teus braços protetores de pai, marido e avô, e esperava que acordasses. As cerimónias foram lindas, tão cheias de significado, tão cheias de amor. A igreja estava cheia, completamente cheia. No altar, acompanhando-te e acompanhando o teu filho, não houve espaço para tantos, bispos, padres, diáconos e acólitos, mais de 50, vindos de todo o país, dos Açores e da Madeira. És importante! Não é vaidade, é orgulho. Sei que na tua humildade não te vias assim, importante, mas a verdade é que foi precisamente a tua humildade, generosidade e honestidade que sempre cativaram quem te conheceu. Humildemente tornaste-te tão grande, tão querido, tão acarinhado, tão admirado. Foi a herança maior que nos deixaste, o exemplo de humildade, de generosidade e de honestidade. E o amor!

Agora tenho-te de uma forma diferente, tenho-te todo em mim. Repara que te trato por tu, nunca te tratei assim, não por distanciamento, por reverência, mas agora que ficaste em mim já não faz sentido invocar-te de outra forma.

As cerimónias acabaram, ficámos sensibilizados e muito orgulhosos por saber e sentir o quanto és importante, para tantos, mas agora podemos voltar atrás?

Voltar ao tempo antes daquelas gotas de chuva terem caído assim que soube da tua partida, gotas de chuva que se misturaram com as minhas lágrimas numa torrente de tristeza. Voltar ao dia em que te fui visitar e me seguraste a mão, naquele último dia em que nos olhámos. Queria voltar atrás e apertar-te a mão com mais força, segurar-te e não te deixar ir, como me seguravas a mão quando eu era criança e corria a teu lado para acompanhar o passo rápido e decidido de quem sabe o seu caminho.

Voltar ao último natal, às últimas férias juntos. Reviver os momentos de convívio, de conversas e de diversão. Queria tornar a ver aquele brilho no olhar e o sorriso discreto e malandro de quem com os netos ganhou o direito de voltar a fazer diabruras. Voltar ao dia em que te pedi que ensinasses a minha filha a andar de bicicleta. E ensinaste-a. Apesar das dores de costas amparaste-a e foi contigo a sua primeira pedalada livre e autónoma, como contigo tinha sido a minha primeira pedalada livre e autónoma numa tarde de verão há 45 anos. Voltar ao dia em que radiante pegaste no teu neto pela primeira vez, voltar ao dia em que orgulhoso me acompanhaste ao altar.

Voltar à infância. Aos dias que me levavas e me ias buscar à escola. Aos dias em que apenas queria a resposta a uma pergunta simples, mas insistias que consultasse a enciclopédia e que encontrasse eu a resposta e aprendesse muito mais. Voltar ao dia em que me pegaste na mão e me levaste a conhecer o meu irmão recém-nascido. Voltar aos dias em que me levavas às cavalitas e em que fazias de cavalinho e nos transportavas, a mim e à minha irmã, às voltas pela casa. Voltar ao tempo em que me chamavam “a menina pescadinha do papá”. Queria voltar atrás e voltar a ter pai e mãe, os 2 pilares da minha vida.

E se eu pudesse voltar atrás voltava a viver tudo de igual forma, com as alegrias e com as tristezas, com as conquistas e com os erros, porque foi com eles que aprendemos e fortalecemos a nossa relação. Se eu pudesse voltar àquele último dia não teria dito palavras diferentes, não teria sido capaz. Nunca fomos de expressar sentimentos, mas sinto que nada ficou por dizer. O que não verbalizámos expressámos com o olhar, com os gestos, com as ações.

Se eu pudesse voltar atrás queria mudar aquele grande erro, o que não podia ter acontecido, o impensável, o incompreensível, a tua morte, pai.

Viagem




O comboio ainda se encontrava na plataforma da estação de Santa Apolónia, iluminado pela frágil luz de fim de dia de inverno, aguardando a hora da partida em direção ao norte, quando surgiu a confusão. Aparentemente tinham sido vendidos 2 bilhetes para o mesmo lugar. O rapaz, de pé, confirmou os dados do seu bilhete no telemóvel e o casal, que já se encontrava sentado, fez o mesmo, confirmando os dados dos seus bilhetes. Comprovou-se a coincidência do lugar nos 2 bilhetes, no entanto, o jovem, de feições desenhadas com mestria e tranquilos olhos azuis, com delicadeza disponibilizou-se a sentar-se num qualquer lugar vago até à chegada do revisor. À hora marcada o comboio iniciou a sua marcha ainda com poucos lugares ocupados. Passados apenas 10 minutos de viagem parou na estação do Oriente onde entraram os passageiros que lotariam todos os lugares de todas as carruagens. Já o comboio seguia viagem, afastando-se de Lisboa e ainda reinava a desordem, com pessoas à procura dos seus lugares, atravessando e cruzando o estreito corredor, passageiros que, tendo encontrado o seu lugar, paravam para colocar a bagagem na prateleira superior, impedindo a passagem, quando surgiu novo constrangimento. Uma jovem rapariga de cabelo preto, longo e ondulado, vestida com camisa branca, calças e casaco pretos, a combinar com as armações dos óculos, tinha bilhete para o lugar onde se sentava um dos elementos do casal protagonista da altercação anterior. Mais uma vez foram verificados os respetivos bilhetes e confirmou-se a coincidência de existirem 4 bilhetes para 2 lugares. O muito sereno e compreensivo jovem, vestido com calças de ganga, ténis all star pretos, blusa preta e sobretudo comprido, que, entretanto, já se encontrava de novo em pé, porque todos os lugares estavam agora ocupados, sugeriu que esperassem pelo revisor que deveria solucionar a situação. Não era a primeira vez que lhe acontecia algo idêntico, mas a rapariga, muito racional e pragmática, insistiu em verificar ela própria o bilhete do casal, alguma coisa teria de estar errada, não aceitando que tivessem sido vendidos 2 bilhetes para cada um dos 2 lugares onde o casal se encontrava sentado. Da sua perspicácia surgiu a constatação que o casal tinha de facto bilhetes para aqueles lugares, daquela carruagem, daquele comboio, àquela hora, desse dia… mas do mês seguinte! Esclarecida a questão, o casal resignado e assumindo o seu engano, levantou-se e cedeu os respetivos lugares aos jovens que finalmente puderam sentar-se. Teria o casal de procurar o revisor e tentar arranjar uma solução para a sua viagem, que, entretanto, já decorria.

Enquanto os jovens se acomodavam nos respetivos lugares trocaram algumas palavras, muito provavelmente relativas à questão dos bilhetes. Já sentados continuaram ainda por alguns instantes a conversar. Quando a pretendente a escritora, que tinha assistido a todo o desenrolar da situação, olhou para trás e os viu a conversar, os seus olhos iluminaram-se e, entusiasmada, comentou com a filha, que viajava no lugar ao seu lado, - Já sei o que vou escrever; vou contar a história do jovem casal que o acaso da duplicação de bilhetes de comboio uniu, tendo passado de completos estranhos para inseparáveis amantes! Bem, admitia que o tema era um pouco piroso e um lugar comum, mas era a história que tinha acontecido ali mesmo... Ou poderia vir a acontecer. As ideias começavam a fervilhar na cabeça da aspirante a escritora, a coincidência dos acontecimentos era enorme e os ingredientes estavam todos lá: dois bonitos jovens da mesma faixa etária viajavam sozinhos rumo ao norte do país, um percalço com os bilhetes tinha-os levado à fala, poderiam aprofundar o conhecimento mútuo durante a viagem, teriam cerca de três horas para essa tarefa, o resto viria naturalmente. Animada a, digamos, escritora olha por cima do ombro esquerdo para observar o jovem casal e analisar o avanço da relação. A deceção apoderou-se dela quando verificou que afinal os jovens apenas tinham trocado meia dúzia de palavras, provavelmente relativas à situação vivenciada por ambos, e de momento ignoravam-se completamente. Ele, com phones nos ouvidos, utilizava com atenção o telemóvel, ela, apenas prestava atenção ao livro que, entretanto, tinha tirado da mala e que lia sem dele desviar o olhar. Afinal, dali não resultaria nenhuma relação, tanto trabalho que o destino tinha tido para os juntar, o transtorno causado ao casal que acabou por embarcar no comboio com o bilhete errado e simplesmente ignoravam-se! Voltou-se para a frente e franziu a sobrancelha esquerda, o que fazia sempre que tentava engendrar a solução para algum problema. Não queriam falar e travar conhecimento agora, pensou, não fazia mal, afinal seria ela a escrever a história, era livre de lhes inventar o futuro que quisesse. Pois bem, então não falariam mais durante a viagem, mas a jovem seria uma brilhante aluna do 6.º ano da faculdade de medicina da universidade do Porto e o rapaz um jovem arquiteto, recém-licenciado, a trabalhar a tempo parcial num conceituado gabinete de arquitetura, também no Porto, tentando conciliar esta atividade com a banda em que tocava piano e da qual era manager. Teria, aliás, sido por essa razão que se tinha deslocado a Lisboa. Estava a ultimar a organização de uma série de concertos intimistas em várias salas e bares da capital.

Voltar-se-iam a encontrar no Porto, no hospital, após um trágico, mas não fatal, acidente de trabalho. Apesar de cumpridos todos os requisitos de higiene e segurança no trabalho na obra projetada pelo gabinete de arquitetura, em execução na Cedofeita, a verdade é que o acidente ocorreu. Há quem tenha dito que a inexperiência do arquiteto responsável nesse dia pelo acompanhamento da obra, o levou a cometer aquela inconsciência e irresponsabilidade. Há quem tenha dito que se tinha apercebido logo que o arquiteto não estava bem, devia estar pedrado, para ir para a obra com aqueles olhos e olheiras, não admira que o acidente tivesse ocorrido. Há ainda quem afirme a pés juntos que o rapaz foi empurrado.

Seja como for, teria de haver um acidente. Eles teriam de se voltar a encontrar e, sendo ela estudante do 6.º ano de medicina, o hospital seria um ótimo local de encontro. Ele fragilizado, mas nunca deixando de transmitir tranquilidade no seu olhar azul. Ela mais enérgica, pragmática, determinada em arranjar a melhor solução para os problemas que se lhe apresentam, como o daquele jovem que, junto com os colegas e médicos, tinha de sarar. A cara não lhe era estranha, apesar do grande hematoma. Deveria ser só aquela estranha e terrível sensação que tinha sempre que se abeirava da cama de um paciente. O medo de reconhecer o rosto de alguém querido, provocava quase sempre um falso reconhecimento do rosto do doente. Mas aqueles olhos, aquele olhar meigo e tranquilo, azul, já o tinha sentido antes.

A história poderia ser diferente, claro, para quê tanto dramatismo, para quê o acidente? Porque sacrificar o pobre rapaz precisamente quando tanto trabalho, dedicação e noites sem dormir, finalmente começavam a dar fruto? No gabinete gostavam dele, a sua sensibilidade e ousadia criavam espaços únicos de uma beleza incrivelmente melodiosa. Se não fosse a música, a banda, poderia até já estar a tempo inteiro no gabinete. Na verdade, apesar da singularidade sonora, também a banda estava a conseguir o seu lugar e começava a ser requisitada para eventos musicais e alguns concertos.

O reencontro seria bem mais bonito, e não tão dramático, se não acontecesse o acidente. Seria melhor o reencontro acontecer na véspera do dia do suposto acidente, num bar, perto da Ribeira, onde o jovem pianista tocava com a sua banda, já noite dentro. Ela desceria as escadas entrando no bar mal iluminado. Os risos provocados pela animada conversa com os amigos não lhe permitiram sentir logo a música. Apenas quando se sentou, numa mesa entretanto deixada disponível, a saborear um Sipsmith, o seu gin preferido, é que a conversa se distanciou e a música preencheu o espaço. Que melodia tão densa, mas tão libertadora. Fazia-a esquecer as desgraças que presenciava nas aulas práticas no hospital. Abstraiu-se dos amigos, que entretanto tinham recomeçado a conversa, do local onde se encontrava e distanciou-se de todas as preocupações, de todos os rostos em sofrimento, de todas as decisões difíceis que na sua profissão teria de assumir, de todas as más notícias que teria de dar a quem apenas queria ver nela o rosto da esperança. Embalada pela melodia terminou o seu gin e dirigiu-se ao piano. Sentia uma necessidade imensa de partilhar com a banda o bem que a sua música lhe estava a fazer. Reconheceram-se imediatamente. O resto da noite foi passado a conversar, entre bebidas e atuações. Os dados estavam finalmente lançados. Acabaria por ser a sua música a cativá-la e não a gentiliza e educação com que ele tinha gerido a questão dos bilhetes duplicados. O resto da história iria ser escrita por eles, dia-a-dia, cada dia.

Esta história seria bem mais bonita, no entanto, inverosímil. A rapariga, estudante responsável, nunca sairia até tarde, sabendo que no dia seguinte teria de estar no hospital. Teria de estar 100% concentrada e desperta para aprender e para ajudar. Já o rapaz, trabalhando a tempo parcial no gabinete de arquitetura, sabia que na manhã seguinte poderia repor as horas de sono em falta. Por isso a banda expressava livremente a sua arte até bastante tarde no bar onde tocava às quartas, quintas e fins de semana. O que o rapaz não contava, ninguém contava, é que na manhã seguinte o filho de um colaborador do gabinete tivesse uma indisposição súbita e imprevisível, ou até bastante previsível uma vez que na creche onde andava, já várias crianças tinham ficado em casa nos dias anteriores. Excecionalmente foi pedido ao rapaz que fosse substituir o colega. Teria de ir à obra de reabilitação de um edifício de 4 andares na Rua da Boavista. Alguns pormenores teriam de ser nessa manhã decididos em obra e era essencial a presença de alguém da equipa projetista, caso contrário seria quase certa a alteração, pelo empreiteiro, de algumas intenções de projeto. Apesar do sono e das poucas horas de descanso, disponibilizou-se a ir. Poderia ser uma boa oportunidade para defender aquela ideia inovadora que tinha tido em projeto, mas à qual o dono da obra torceu o nariz. Quando chegou já todos o esperavam e, apesar do sorridente bom dia, não conseguiu disfarçar o olhar vidrado de sono.

No hospital, os médicos, com toda a atenção dos estudantes, usaram os seus conhecimentos e perícia para lhe salvar e tratar a mão e braço esquerdos que tinham ficado bastante maltratados na queda. Felizmente, apesar dos hematomas, não tinha traumatismo craniano, o capacete tinha cumprido a sua função e o braço e mão acabaram também por amortecer o impacto da cabeça no pavimento de pedra. Na primeira visita após a cirurgia, a rapariga deixou-se ficar um pouco mais tempo, mesmo depois dos colegas terem saído. Abeirou-se dele e, com um sorriso sincero, perguntou-lhe como se sentia, se tinha dores, se precisava de alguma coisa. Ele olhou para a mão imobilizada em ligaduras e, ganhando a coragem que lhe tinha faltado perante o médico, com o seu olhar azul perguntou delicadamente com tinha ficado a mão…se ficaria inutilizada ou se recuperaria completamente. Ela arrepiou-se quando lhe reconheceu a voz, aquela voz musical, educada e delicada, naquele olhar azul. Sorriu de novo e respondeu com toda a tranquilidade que encontrou, apesar de se sentir perturbada, que ainda tinha um longo caminho pela frente, teria de fazer fisioterapia, mas que felizmente tinha tido a sorte de ter sido operado pela melhor equipa de cirurgiões do hospital. Estava em boas mãos. Ele olhou-a nos olhos e reconhecendo-a sorriu também, mas a preocupação com a mão logo lhe tirou o sorriso dos lábios e dos olhos. Notando-lhe o azul a escurecer ela apressou-se a acrescentar nervosa e despropositadamente – felizmente é a mão esquerda… O azul tornou-se negro. Não respondeu. Não disse que era pianista e canhoto, que gostava de desenhar, que precisava daquela mão, das duas mãos. Ficaram ali, frente a frente. Ele fragilizado e ela perdida entre o pragmatismo que sempre a acompanhava e a impotência e desconcerto que sentia no momento. Os segundos em que ficaram assim, frente a frente, sem dizer nada foram suficientes para que ela se recompusesse. Desculpe, disse. Foi despropositado. A operação correu muito bem, apesar de ter ainda um longo caminho de recuperação pela frente, acredito que vai recuperar completamente.  Desculpe mais uma vez… sim, recordo-me que é canhoto, independentemente disso nunca deveria ter feito aquele comentário. Agora ela sentia-se extremamente embaraçada, sentia a cara a ferver, sentia-se como uma criança apanhada em falta. Ele notou-lhe o nervosismo, o que lhe dava algum charme, e, suavizando o olhar, perguntou como é que sabia que ele era canhoto. No comboio, respondeu, reparei que por vezes pegava num caderninho e fazia uns rabiscos, pegava na caneta com a mão esquerda. Apesar da situação, talvez porque ainda estava sedado e não tinha dores, soltou uma gargalhada. Uns rabiscos! Ela desculpou-se novamente, corando ainda mais. Que gira que ficava corada e que sexy com a bata branca, pensou, e o azul iluminou-se. Quebrada a tensão inicial descontraíram os dois. Recomposta, explicou-lhe detalhadamente a anatomia da mão, os procedimentos efetuados, os que teriam ainda de ser feitos, todos os possíveis cenários futuros (ou pelo menos aqueles que a deontologia permitia que lhe dissesse), os cuidados que teria de ter e preparava-se para dissertar sobre os novos métodos de recuperação de tecidos e ossos quando a enfermeira entrou.

Já tinha passado uma hora e quarenta minutos de viagem quando foi anunciada a aproximação do comboio a Coimbra, onde faria uma paragem. A escritora levantou-se, vestiu o casaco e tirou a mala da bagageira por cima do seu lugar. A filha arrumou o caderno de desenho e o lápis na mochila e vestiu também o casaco, já era noite e deveria ter arrefecido. Olhou para trás, os jovens continuavam absortos nas suas atividades, sem se falarem. Ela continuava a ler o seu livro e ele fazia uns rabiscos num caderninho. Seriam desenhos? Ideias de projeto? Seriam notas musicais e o esboço de uma nova música? Não conseguiu perceber. Sairia em Coimbra e os jovens prosseguiriam viagem, até Aveiro talvez, ou Porto ou mesmo Braga, o término da viagem. Provavelmente não voltariam a trocar palavras e a história não passaria de um devaneio seu. Saiu com a filha, os dois jovens permaneceram no comboio, seguindo viagem. A rapariga, sentada à janela, levantou os olhos do livro enquanto o comboio reiniciava a marcha, olhou para fora e sorriu ao ver aquela menina que tinha acabado de sair do comboio e avançava na plataforma em direção à saída, de mão dada com a mãe. Recordou-se de quando era nova e também ela fez uma viagem de comboio com a sua mãe, nessa altura sentia que as viagens de comboio tinham sempre algo de místico. Na plataforma, mãe e filha, viram o comboio afastar-se em direção ao norte, até desaparecer num ponto de luz.

Passava da hora de jantar quando o comboio parou em Braga. O rapaz levantou-se e, delicada e educadamente, deu passagem à rapariga. Ela agradeceu corando ligeiramente. Durante a viagem tinha reparado que ocasionalmente ele fazia uns rabiscos num caderninho. Como era canhoto e ela estava à sua esquerda, não tinha conseguido perceber de que se tratava. A sua curiosidade tinha-a levado por diversas vezes a desviar o olhar das letras do seu livro e a espreitar para o que o rapaz fazia, mas sem que a mesma tivesse sido satisfeita, bem pelo contrário. A sua curiosidade ficou ainda mais aguçada quando ela reparou na cicatriz da mão que, com agilidade, manuseava a caneta. Nunca ficava indiferente perante uma cicatriz. Saíram juntos do comboio, ele atrás dela. Na plataforma pararam e ficaram por momentos frente a frente. Constrangidos sorriram, ambos envergonhados, e seguiram caminho lado a lado. Dirigiram-se para a praça de táxis e, chegando ao fim da fila, delicada e educadamente cederam o lugar um ao outro. Tanta cerimónia, tanto faça favor, depois de uma viagem inteira lado a lado, provocou neles um ataque de riso. Conversando, acabaram por perceber que iam para a mesma zona da cidade, podiam partilhar o táxi. Quando chegou a sua vez, entraram os dois para o banco de trás do táxi, conversariam melhor lado a lado. O táxi arrancou com os dois jovens deixando a estação para trás. O comboio permaneceu na linha, guardando os silêncios da viagem.

Equilíbrio




Transfiro o peso do corpo para o pé esquerdo descalço agarrando o chão. Cruzo a perna direita em volta da esquerda juntando as coxas, elevo os braços, aperto a barriga, contraio as nádegas, relaxo os ombros, concentro o olhar num ponto fixo e tento permanecer na posição, em equilíbrio. Os segundos passam, passam também minutos. Os ombros contraem-se, a barriga relaxa, o olhar distrai-se, os músculos doem, perde-se a postura, perde-se o equilíbrio. Relaxo, respiro fundo, descontraio os músculos doridos e volto ao início. Novamente na postura tento encontrar o verdadeiro equilíbrio, aquele ponto em que o corpo consegue permanecer na posição sem dor, imóvel. Desfoco o olhar e tento esvaziar a mente, concentrar-me apenas no corpo, na respiração. Tarefa árdua, a minha mente deve ser muito rebelde, por vontade própria põe-se a divagar, foge, os pensamentos surgem, interferem com a respiração, distraem-me. Perco novamente o equilíbrio, volto ao início e retomo a posição mais uma vez, as vezes que forem necessárias. Um dia hei-de conseguir encontrar o meu ponto de equilíbrio, um dia conseguirei permanecer na posição de equilíbrio na aula de Yoga.

Não é fácil atingir o equilíbrio, físico, mental e emocional e aí permanecer. As solicitações, as distrações e as mudanças constantes tornam essa tarefa um desafio permanente.

Em criança ansiamos ser adultos, quando nos tornamos adultos desejamos voltar a ter o tempo e a ausência de responsabilidades que tínhamos em criança. Desejamos ter alguém, desejamos liberdade, desejamos filhos, desejamos tempo, desejamos trabalho, desejamos descanso, desejamos dinheiro, desejamos amor, desejamos… e os nossos desejos são sempre contraditórios.

O equilíbrio físico, mental e emocional encontra-se por vezes quando conseguimos equilibrar nos pratos da balança situações, estados, sentimentos e acontecimentos completamente antagónicos. Se, por um lado, há quem apenas consiga o equilíbrio na sua vida andando sempre pela linha reta que lhe garanta manter o foco num objetivo bem definido, há quem, como eu, por outro lado, só consiga manter o equilíbrio vivendo a tocar os opostos.

Por essa mesma razão tento encontrar a felicidade entre o desejo e a realização, atingindo um equilíbrio. Mas a mente é rebelde, tem vontade própria, divaga, foge, quer mais, quer diferente, distrai-me e perco novamente o equilíbrio. O exercício de controlar a mente é muito mais difícil que o exercício de controlar o corpo, a mente não tem as barreiras nem os limites que o corpo tem. Felizmente! A mente quer-se livre porque é libertando-se que se supera e atinge grandeza. O exercício de controlo da mente não passará por a condicionar, por a limitar, mas por a deixar expandir-se infinitamente, libertando-se de fronteiras impostas e, em oposição, aprender também como canalizar o seu foco, centrando-se num único ponto finito, mínimo, dentro de nós.

Tenho conseguido atingir equilíbrio físico, mental e emocional alternando aulas de Yoga com aulas de Fight.

No Fight, esmurraço, pontapeio, dou joelhadas e cotoveladas e não paro de pular e saltitar, nunca permanecendo imóvel. O corpo explode em movimentos rápidos, libertando toda a energia. A mente voa, livre, não a contrario.

A serenidade, paz e interiorização do Yoga em equilíbrio com a dinâmica, explosão e exteriorização do Fight. As duas me libertam e as duas me renovam energias, complementam-se, completam-me.

A moldura




Acordou muito antes do despertador ter tocado. Era o seu primeiro dia no novo emprego e queria fazer boa figura arranjando-se com aprumo e chegando antes da hora. Além disso, o nervosismo despertara-a e não conseguia dormir mais. Tinha percorrido um longo e difícil caminho para conseguir aquele emprego: o concurso nacional, as provas, as entrevistas e os muitos e variados testes que avaliaram, não só a sua capacidade intelectual e os conhecimentos necessários ao desempenho da função, como o seu equilíbrio mental e harmonia emocional. Foram meses de espera, de deslocações, de estudo e de muitas orações a S. José, para que do alto intercedesse a seu favor e conseguisse o tal emprego. Bem sabia que o poder de S. José era insignificante relativamente à vantagem de ter alguns contactos junto da administração, mas na falta destes não estava em posição de menosprezar o poder divino. Quando recebeu a carta registada com a classificação do concurso e a informação que tinha sido a candidata vencedora, primeiro ficou eufórica, depois incrédula, por fim experimentou uma sensação de estranheza quando viu na classificação a lista com os candidatos desistentes. Bem, não seria isso que lhe iria estragar a alegria e o sentimento de triunfo que finalmente experimentava na sua vida.

Assim que chegou ao seu novo posto de trabalho constatou que afinal não era a única a chegar antes da hora, já algumas colegas ocupavam os seus lugares. Teria de confirmar o horário de trabalho, achava estranho tanta gente começar antes das 9:00 horas, não era isso que se dizia daquela instituição. Foi recebida com simpatia, apresentada a toda a equipa e encaminhada para a sala onde iria finalmente exercer a profissão para a qual dedicara tantos anos de estudo. Foi-lhe destinada uma secretária, perpendicular à minúscula janela, que não poderia abrir pois o ruído do trânsito da movimentada rua, causaria incómodo e perturbaria a concentração, um bloco de gavetas com fechadura onde poderia colocar o material de trabalho e os pertences pessoais, um armário alto, parte das prateleiras da parede e, claro, a cadeira de rodinhas com apoios de braços e de costas altas reguláveis.

Estava maravilhada, era tudo novo e tão diferente do seu antigo emprego como caixa de supermercado. Passados os primeiros 15 minutos de fascínio, sentada na cadeira que estava longe de ser nova, com o tecido castanho muito coçado e as rodinhas que de tão gastas já não deslizavam, observou o espaço em seu redor. Bolas, como era feio! Para além do amontoado de pastas e processos em cima dos armários, secretárias e chão, tendo apenas livre 1 m2 de chão para esticar as pernas, o mobiliário pseudo-vintage anos 80 em tons de cinzento, verde seco e castanho, era pavoroso. Por trás da sua secretária havia um painel de cortiça com alguns mapas e cópias de legislação, mas ainda com algum espaço livre. Bem, já que seria ali que passaria grande parte do seu dia, resolveu dar-lhe um toque pessoal e colocar alguns elementos que a alegrassem e lhe transmitissem bem-estar, o que com certeza aumentaria o rendimento do seu trabalho.

No dia seguinte, o seu segundo dia de trabalho, chegou já passava das 9:00 horas. Do saco de papel que tinha trazido de casa tirou fotografias, desenhos, um pequeno poster e uma moldura com uma foto sua com os filhos. No espaço livre no painel de cortiça foi colocando com rigor geométrico e equilíbrio estético, as fotos dos filhos na praia, no primeiro dia de aulas e no torneio de futebol, assim como alguns desenhos que os filhos lhe tinham dedicado e o poster. Aquela foto especial tirada no dia da mãe, em que aparece abraçada pelos filhos, colocada na moldura feita pelo mais novo na infantil, colocou em cima da secretária, num cantinho, à frente da pilha dos processos. Satisfeita pensou que afinal ali poderia ser feliz, só tinha de se abstrair do resto e alternar o foco entre o trabalho e aquelas fotos e desenhos que lhe proporcionavam uma sensação tão boa.

Ao terceiro dia começava a desconfiar da razão de tão elevado número de candidatos desistentes ao lugar que ela agora ocupava. Algo de muito estranho se passava naquela instituição. Era como se tivesse entrado num mundo paralelo onde o surreal naturalmente se tornava realidade e os comportamentos aberrantes de alguns elementos eram tidos como caraterísticas de comprovada competência, caso contrário como poderiam continuar a ocupar aqueles cargos?! Ela própria passou a ser cenário e testemunha de situações que já tinha ouvido, mas que nunca tinha acreditado fossem reais, tinha a convicção que eram fruto da imaginação e inveja alheia.

Ao quarto dia recebeu a instrução que teria de tirar as fotos e desenhos colocados no painel de cortiça por trás de si…assim como a moldura infantilizada e imprópria na dignificação do local de trabalho!

Não chegou a ouvir as razões plausíveis para tal decisão. A parede fica mais bonita e limpinha sem aquela papelada toda colorida, ponto. Não pode haver fotos e desenhos nas paredes, ponto. Elementos pessoais não podem ser exposto no local de trabalho, ponto. Humm, então é isso. Pensou que a febre da aplicação da nova lei de proteção de dados estava a ser levada ao ridículo, mas como era nova na instituição e o seu poder estava reduzido a zero, tirou as fotos, os desenhos e o poster do painel de cortiça, ficando novamente a superfície castanha à vista, lindíssima... Mas a moldura, a moldura que o seu mais novo tinha feito na infantil, na classe dos patinhos de bibe amarelo, com a foto especial tirada no dia da mãe, em que o abraço dos filhos a confortava cada vez que a observava, permaneceu em cima da secretária. Era o seu grito de rebeldia, a sua ligação à terra, a linha que a manteria à superfície, não a deixando submergir nas profundezas da lama em que a instituição afundava os seus funcionários. Colocou os phones nos ouvidos e ficou a ouvir o hit do momento: Shallow!

Chá, café...ou um copo de vinho tinto

  Ouvi o silvo da chaleira ao lume, a água fervia, o chá ficaria pronto num instante… Mas não tenho por costume fazer chá, nem oferecer ch...